domingo, 28 de fevereiro de 2010

Silêncio

Por Amanda Leal
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Fiquei em silêncio. Primeiro, sem motivos, sem espreitar razões ou porquês. Depois, por ter todas as razões do mundo, sentir os porquês, apesar da enorme incapacidade em descrevê-los.
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Resignei-me como de costume. Engoli as palavras e meu ego em forma de som e saliva e voz. Quando tentei articular palavra, nada me saía. A voz, embargada, como se quisesse dizer que nada havia para se dizer. Não faria sentido concatenar ideias fora de mim, quando ninguém havia que se habilitasse a ouvi-las e tampouco compreendê-las. Eu mesma não compreendia e ainda assim, com certa angústia a fazer-me do peito um nó, estava satisfeita. Não sei se por ter entendido que nem sempre o dito tem valor, ou que sempre temos ouvintes (o que não temos), ou ainda que nem tudo para existir precisa de voz e aprovação. Não descarto a hipótese de não ter entendido absolutamente nada, o que também não me desagradaria. Nem mesmo meu egocentrismo é onipotente, e custa-me admitir isto, mas assim é que se é. Talvez seja tempo de se desfazer de algumas grandes dores, encontrar outras, menos barulhentas e insípidas.
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Sei que quebrei meu silêncio, mas não é tudo. Esse é o meu silêncio particular, não importa quantos ecos se façam ouvir. Nem tudo pode ser silêncio porque apenas o que resta é silêncio.
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E no fim e no começo, o próprio silêncio fora a razão de tudo.
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Amanda Leal - Estuda teatro em Curitiba e (segundo ela própria) escreve nas horas vagas, desesperadas e inspiradas. Não consegue rotular seus textos, por displicência. Nunca publicou nada e nem pretende, dada a sua inabilidade em deixar de lado o pessoal e escrever como quem conta histórias. Afoga-se em si mesma com facilidade, expelindo palavras suas e ao mesmo tempo alheias, roubadas. Bloga em www.circunstanciaqualquer.blogspot.com
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Dia de Índio

Por Homero Gomes

fico triste mais que indignado com o que nosso povo sem raça faz com as várias famílias tribais indígenas que se espalham pelo território brasileiro é como esses pernilongos que mordem ardido desses que cortam até coro de boi é como isso a sensação que sinto neste dia não precisaria estar escrevendo dessa maneira oh experimental talvez a melhor forma de ser ouvido é gritando mas os tímpanos dos tiranos estão vazados a muito tempo exclusão milenar escravidão milenar sofrimento milenar existe índio se matando suicídio de um povo sábio eles sim é que têm história que têm sangue denso de passados não nós nata azeta mistura de nada com nada mas essa história história deles não nossa mas nossa também história antes da história acima dela já que conseguiram matar até ela pós-história pós-tudo não é assim isso é coisa de branco que na vontade de proteger o fraco o enforca esse povo está morrendo como esse desabafo sem fogo a União detém as terras deles proteção que nada não podem nem fazer o que quiserem com o ínfimo do patrimônio que possuiam pode comer essa mulher fingir que ela é tua vesti-la de branco véu grinalda o escambau mas a boceta dela continua sendo minha cabra não invente de fazer filho nessa potranca mas meu desânimo é solidário irmãos fujam de nós o homem branco não sabe nunca soube o que faz

Na próxima semana, um beijo na mão do Papa, um escarro na boca santa. Jamé Vu, um livro doente.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Presa

Penetrei-a com instrumento rombudo, ferro em brasa. Os movimentos do corpo: bruscos, violentos, quase desesperados. A presa, acuada: alguns gemidos — chorando pra dentro — e nenhum espasmo.

Descarte

Isso que você chama de amor não existe. Existe, sim, esse deserto aí, esta pedra, aquela poça de lama... Uma linguagem toda foi criada para nos enredar, nos deixar à deriva no mar de ilusões. Mas você crê. Contra a crença, nada se pode fazer. Cega, e esse homem arrastando-a para o abismo.

Cardume

Sento-me, pernas cruzadas, nesga de carne à mostra: a isca. O mínimo de reputação preservado. Se olhar para mim, fisgo-o — peixe graúdo em meio à miudeza. Deve se debater: o macho surpreendido em sua rotina de caça. Mas devo me manter firme, arrastando-o até aqui só com o arpão do olhar.

'Mulheres' - parte 03

HISTÓRIA DE AMOR

Por Claudio Parreira

TE FIZ O PRESENTE mais belo. Um embrulho de sílabas cintilantes, dentro dele uma caixa, dentro da caixa todo o meu amor.

Mas você não viu. Preferiu declamar horizontes distantes e desconhecidos, saltitar conhaques como quem filosofa todo o entendimento do mundo.

De minha parte apunhalei margaridas em teu nome. Chicoteei borboletas. Mas teus olhos surdos jamais sentiram o perfume dos meus sentimentos.

Loucura, eu sei. Porque você não vale poemas nem suspiros. Você não vale nada.

Os laços da paixão em volta do meu pescoço, asfixia. Teu nome que a minha língua insiste em não esquecer. Minhas mãos cheias de nada.

As meninas sorriem pra mim na rua. Outras chovem beijos e intenções. Besta, dispenso a todas com a polidez das açucenas. Fidelidade é um tronco atravessado na garganta.

Um dia hei de me vingar pelos meus desvarios em tua homenagem. E será um gozo enfim, o último gozo: vais receber pelo correio o meu coração ensangüentado, arrancado do peito com minhas próprias mãos, prova mais-que-perfeita dessa história de amor que jamais aconteceu.
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Resultado do sorteio do livro ‘A lua vem da Ásia’, de Campos de Carvalho

A vencedora do sorteio da obra A lua vem da Ásia (Campos de Carvalho), é: Laura Assis. Parabéns!

A sorteada terá 7 dias para entrar em contato com os editores d’O BULE, pelo email coisaprobule@yahoo.com.br, a fim de enviar seu endereço. Um email também será enviado para ela. Após esse prazo, caso a sorteada não tenha entrado em contato com O BULE, outro sorteio será feito.

Obs: Lembramos, também, que o contemplado de um sorteio não poderá participar dos próximos 4 sorteios.

E não esqueçam, nunca, de se identificar. O email é fundamental!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A vingança do ícone iconoclasta

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Campos de Carvalho não está mais entre nós, mas está com a bola toda. O último satanista da literatura brasileira (foi assim que ele se definiu certa vez) está virando um ícone contemporâneo. Um ícone iconoclasta. Seus principais romances, depois de muito tempo esquecidos, foram relançados com sucesso em meados dos anos 90, num volume único intitulado Obra reunida. Agora eles voltaram a ser publicados também separadamente, e dois foram recentemente adaptados para o palco, com igual sucesso. Nada mal para esses livros irreverentes e inquietantes, às vezes ranzinzas e antipáticos — como dizem que seu autor costumava ser —, escritos há mais de quarenta anos. Vamos aos fatos, aos boatos, às anedotas.
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Trajetória torta
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Walter Campos de Carvalho nasceu em plena Guerra Mundial, em 1º de novembro de 1916, em Uberaba, Minas Gerais (se é que Minas Gerais existe mesmo). Terminados os primeiros estudos na cidade natal, veio a São Paulo para cursar a faculdade de Direito e chegou a dividir um quarto de pensão com o conterrâneo Mário Palmério, com quem se desentendeu tempos depois, por razões ideológicas e estéticas. Em 1938 formou-se pela Faculdade São Francisco, tendo trabalhado durante toda a vida como advogado e procurador do estado de São Paulo.
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Estreou na literatura aos vinte e cinco anos, ou seja, em 1941, com Banda forra, coletânea de ensaios humorísticos publicada às suas custas, elogiada na época por Monteiro Lobato. Apesar disso o livro passou completamente despercebido. Mais de dez anos depois surgiu seu segundo livro, o romance Tribo (1954). Por vontade expressa do autor, que não via neles qualidades salientes, esses dois trabalhos ficaram de fora da Obra reunida, publicada em 1995 pela editora José Olympio, com orelhas de Mário Prata, prefácio de Jorge Amado e introdução de Carlos Felipe Moisés, três admiradores confessos do autor. Desse volume fazem parte apenas os quatro romances que se seguiram ao de 54: A lua vem da Ásia (1956, indicado ao editor José Olympio, para publicação, pelo amigo e escritor Aníbal Machado), Vaca de nariz sutil (1961, escrito em quarenta dias), A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964, escrito no tempo recorde de vinte e dois dias).
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Também ficaram de fora desse volume o ótimo conto Os trilhos, publicado em 1960, no número 11 da revista Senhor, e a narrativa Espantalho habitado de pássaros, contida na coletânea Os dez mandamentos, de 1965. “Campos de Carvalho é um autor que só será descoberto daqui a trinta anos”, disse Ênio Silveira, e a profecia de fato se realizou. Nos anos seguintes ao da publicação d’O púcaro búlgaro, anos de ditadura militar e de guerrilha cultural, seu temperamento iconoclasta e por vezes arredio, a oposição ao regionalismo de Mário Palmério e Guimarães Rosa, a recusa à militância política cobrada pelos seus pares e as desavenças com os editores levaram Campos de Carvalho a se afastar da literatura.
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Apesar disso, no período de 1968 a 1978 colaborou com O Pasquim, enviando da Europa as crônicas humorísticas que compuseram Os anais de Campos de Carvalho, e também trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo. A lua vem da Ásia e A chuva imóvel foram traduzidos para o francês e publicados pela editora Albin Michel, respectivamente em 1976 e em 1980. Seu nome foi citado pouquíssimas vezes nos compêndios de literatura brasileira e o autor jamais ganhou um único prêmio literário. Morreu de enfarte aos 82 anos, na Sexta-Feira Santa de 1998, depois de mais de trinta anos sem escrever nem publicar outro livro.
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O retorno do maldito
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Durante as três décadas em que ficou distante da literatura, Campos de Carvalho também ficou longe da imprensa cultural, que deixou de procurá-lo. Com o lançamento da Obra reunida, a situação mudou. Fotos, resenhas e entrevistas com esse romancista “louco, brutalista, maldito, anarquista, satanista e surrealista” — essa a maneira como Campos foi tratado por praticamente todos os críticos e jornalistas, tanto pelos que o admiravam quanto pelos que o rejeitavam — foram publicadas em todos os jornais e em todas as revistas importantes.
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O gostinho de ser novamente lido depois de tanto tempo fez com que pensasse em retomar seu projeto literário e em dar à luz outro romance de puro nonsense, na linha d’O púcaro búlgaro. Quando perguntado a respeito, o título provisório do livro que estaria escrevendo era sempre adiantado ao interlocutor curioso: primeiro foi Pássaro insano em céus do Antigo Egito, depois Maravilha no país das Alices, depois , Maquinação sem máquina, especulação sem espelho, em seguida Mosaico sem Moisés e finalmente De novo no ovo. Títulos do derradeiro romance que Campos de Carvalho, impedido agora por sérios problemas de saúde, jamais pôde escrever.
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Neste início de século, o que mais aconteceu? A editora José Olympio publicou as Cartas de viagem e outras crônicas, livrinho cujo título já diz tudo: trata-se da reunião das cartas e das crônicas publicadas no Pasquim nos anos 70. Além disso O púcaro búlgaro e A chuva imóvel foram levados ao teatro, em ótimas adaptações. O que vem por aí? Uma biografia do autor e mais um volume de textos dispersos. Devagar, passo a passo, Campos de Carvalho vai escapando do esquecimento, vai despertando o interesse de mestrandos e doutorandos, mas sem deixar de ser marginal.
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Contra a razão
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As palavras iniciais d’A lua vem da Ásia, elogio irônico à quebra do discurso racional e às sucessivas metamorfoses de todos os seus narradores pretéritos e futuros, sintetizam à perfeição o procedimento ficcional de Campos de Carvalho: “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo”.
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A lógica da insanidade e o bom-senso do nonsense foram sua marca distintiva: “A loucura em Campos de Carvalho é recurso de composição para a sátira combinada ao lirismo, assim como a escala diminuta de Lilliput, por exemplo, eleva a mil o ridículo das pompas dos governantes e das dissensões políticas. (…) Submetendo a tradição clássica aos ritmos da vanguarda traduzidos também, como não poderia deixar de ser, no compasso brasileiro, Campos de Carvalho alinha-se entre os grandes satiristas que, com indignação genuína, vergastaram a irracionalidade e os abusos com que o homem vem escrevendo sua História”, escreveu a crítica Vilma Arêas.
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O que significava o humor para Campos de Carvalho? Às vésperas do lançamento da Obra reunida, Mário Prata foi ao apartamento do autor para entrevistá-lo. Ao chegar, o romancista entregou-lhe um pedaço de papel mal datilografado. Num gesto tipicamente seu, ele já havia feito a entrevista: as perguntas e as respostas. Essa rápida autoentrevista terminava com a seguinte pergunta: “O que significa o humor para você?” E a resposta esclarecedora: “Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável. É o caso de Finnegans wake, por exemplo, ou do mais nebuloso poema de Mallarmé, cujo humor intrínseco sempre nos escapa (tão-me estranho, tão-me intrínseco) por mais que o tentemos desvendar. É o caso também do extenso poema em prosa Hebdomeros, de Giorgio de Chirico, cuja facilidade aparente é apenas a maneira que o autor encontrou para melhor se disfarçar e não se expor ao ridículo, que nele é apenas o humor verdadeiro e sutil. Note-se que não estou sequer tentando comparar-me a esses luminares da literatura de ontem, mas apenas tentando justificar meu total apreço pelo humor como forma de arte, mesmo partindo de uma pequena experiência como O púcaro búlgaro”.
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Por falar em humor… Tribo, o primeiro romance de Campos de Carvalho, ainda não foi reeditado. Infelizmente. Mas tudo indica que no futuro próximo esse delicioso lance de irreverência irá se juntar aos quatro últimos, que agora podem ser encontrados separadamente nas livrarias.
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A lua delirante
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Surgido no contexto do pós-guerra e paralelo ao Existencialismo na Europa, o terceiro romance, A lua vem da Ásia, traz em sua trama caótica e fragmentada as discussões acerca dos traumas e das ansiedades da geração que presenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial. Segundo Marcos Siscar, “as conseqüências psicológicas da guerra, nas personagens de Campos de Carvalho, são evidentes (…), os horrores do morticínio gratuito, largamente decantado pelo cinema, estão representados desde o triste e sutil humor d’A lua até o protesto artisticamente previsível d’A chuva.”
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A lua vem da Ásia é narrado na primeira pessoa. Os episódios se desenrolam de maneira desordenada, o passado e o presente se alternam, e os fatos fantásticos e absurdos, juntamente com as impressões e as reflexões do próprio narrador, são expostos de maneira aparentemente aleatória. O enredo, não obstante o discernimento crítico do narrador, é fruto de uma mente complexa e atormentada pela loucura, que às vezes se cristaliza na forma da mais pura perplexidade. Trata-se de um romance fragmentário, estilhaçado e descontínuo, reflexo de uma mente e uma alma (a princípio do narrador, e não do autor) igualmente caóticas.
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No entendimento de Siscar, o louco nas obras de Campos de Carvalho “não é o psicopata, o não-saudável, mas é justamente aquele que consegue compreender a essência mais íntima da razão humana”, o que muitas vezes redunda em dor e sofrimento, uma vez que a razão humana é a justificativa para várias atitudes não-humanas, ou irracionais, como se percebe nesse trecho, quando o narrador decide denunciar os abusos sofridos: “Pois o que me ocorre, onde me encontro, é apenas isso que me parece de um absurdo inominável: uma minoria armada até os dentes, inclusive com cadeiras elétricas, manda e desmanda em uma maioria de indivíduos realmente individuais…”. O louco, então, é o autoconsciente, em oposição ao são, que, ironicamente, é o grande responsável pela loucura e pelo caos do mundo.
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Vida Sexual dos Perus e Cosmogonia são as duas partes em que o livro se divide. Na primeira parte o narrador se encontra (ou julga se encontrar) num campo de concentração que antes imaginara ser um hotel de luxo, no qual permanece por longo tempo, sem saber determinar sua localização: “Não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia.” Há a narrativa no presente e há uma série de flashbacks sobre a vida do protagonista anterior à clausura, além de várias reflexões que possibilitam ao leitor o contato imediato com as concepções e as posturas extravagantes de Astrogildo, que é como ele se chama ainda hoje, “quando se chama”. Nova reviravolta. Nem hotel de luxo nem campo de concentração, pois se trata na verdade de um hospício, sendo o narrador um de seus internos.
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A segunda parte, Cosmogonia, após o relato da fuga nada espetacular de Astrogildo, relata sua vida em liberdade, bem como suas aventuras fantásticas por vários países. Nesse meio tempo ele exerce inúmeras profissões para sobreviver, inclusive a de estrela de cinema. Mas embora busque sentido em tudo isso, ele logo toma consciência exatamente da falta de sentido da vida: “Mas você, meu irmão, já imaginou o romance sensacional que poderemos escrever um dia sobre esta experiência bélica a que estamos sendo submetidos em pleno tempo de paz, se é que se pode chamar de paz a este estado de angústia permanente e de ódios gratuitos que marca todos os nossos passos, mesmo e sobretudo durante o sono?”
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No final do romance, no capítulo O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z., o narrador escreve uma Segunda e definitiva carta ao Times (com vista ao senhor redator da Seção Necrológica), desejando informar a todos sobre o seu suicídio. A força da ironia e do sarcasmo usados contra os seres humanos e a sociedade, o menosprezo explícito pelas normas, a posição crítica em relação à realidade circundante e a perplexidade diante deste mundo em que as relações humanas perderam completamente o sentido, por tudo isso o narrador decide abandoná-lo: “A comunhão dos vivos ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.”
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As sutilezas do olfato



(Jean Dubuffet)

O título do terceiro romance, Vaca de nariz sutil, importado do quadro homônimo de Jean Dubuffet, pode enganar à primeira vista, uma vez que sugere um humor que em raros momentos se mostra no livro. Aliás, não só o título pode enganar, como as epígrafes (Arrière la choucroute! — Erik Satie; Merde! — André Derain) e as palavras iniciais: “Onde o senhor dorme? No Hotel Terminus. Mas aqui não há nenhum hotel Terminus. É o que o senhor pensa”. Ao contrário do que pode parecer, esse é um romance sombrio, denso, sério.

Vaca de nariz sutil é, como o romance anterior, um relato confessional, mas dessa vez de um ex-combatente de guerra que esteve submerso num universo de morte do qual conseguiu escapar fisicamente (apenas fisicamente) ileso. A temática do livro é a morte. A prosa se reveste agora de tragicidade e, ao mesmo tempo, de um lirismo refinado. Esse lirismo se manifesta especialmente quando o narrador trata de sua paixão por Valquíria, “uma moça de quinze ou vinte anos”, que parece ter alguma deficiência mental. É sobre um túmulo que o ex-combatente possui Valquíria, sendo em seguida surpreendido por uma viúva que o acusa de violentar a filha do zelador em pleno cemitério.

Após receber as honrarias de seu país, o narrador, “ex-combatente e assassino” (segundo suas próprias palavras), ironicamente se transforma (aos olhos da sociedade) num perigoso criminoso. Essa situação acaba instigando nele várias perguntas de fundo moral e ético. Afinal, por ter lutado por seu país e matado outros seres humanos, foi visto como um herói, mas ao se envolver com uma mulher, em cuja relação houve a aceitação mútua, agora é visto como criminoso. Assim, aos poucos se delineia o perfil de nosso anti-herói: questionador, antipatriótico, esquizofrênico, pedófilo e estuprador são algumas de suas características principais, a maioria atribuída pelos outros.

Como em A lua vem da Ásia, o protagonista de Vaca de nariz sutil é totalmente desencantado com as relações sociais, com a comunicação entre os homens. Tanto o primeiro protagonista quanto o segundo refletem, de alguma forma, em maior ou menor grau, um mundo estraçalhado pela guerra. Tanto o narrador do primeiro romance quanto o do segundo são frutos do pós-guerra, desse momento em que se instauraram, ao mesmo tempo, um desencanto e uma esperança débil nos rumos da humanidade. Assim, as duas vozes estão em constante conflito, ora excessivamente amargas, desencantadas e irônicas com o ser humano e a sociedade, porém às vezes desejosas de mudanças. Nesse sentido, é possível enxergar nessas obras um perpétuo assombro ante o caos, a violência e a destruição da civilização e de seus valores.

A chuva subterrânea

O livro seguinte, A chuva imóvel, é certamente o mais denso, lírico e filosófico de Campos de Carvalho. Aqui o prosador exercita, com vigor e brutalidade, sua voz mais raivosa: a voz do sangue e da cólera.

Há controvérsias no que tange à escolha de sua obra-prima: embora a maioria dos leitores e dos críticos considerem A lua vem da Ásia, alguns consideram O púcaro búlgaro, e outros A chuva imóvel. Sendo ou não sua obra-prima, o certo é que o desenlace desse romance é o mais melancólico e claustrofóbico de todos os seus livros: “Levarão séculos para me içar, se é que estão realmente içando, e enquanto dure esta longa ascensão do meu cadáver, mas também do que está dentro dele, eu e não ele — continuarei minuto a minuto a cuspir-lhes do fundo da minha consciência, com esta corda no pescoço mas cuspindo, em sinal de protesto e sobretudo de nojo — por mim e por todos esses que morreram nos meus testículos, que morreram ou que estão morrendo, juntamente comigo morrendo, nesta matança dos inocentes. Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”

O romance não se concentra em temas específicos, mas está calcado na busca existencial da personagem central, André. A narrativa se constrói em diversos episódios transmitidos ainda de forma fragmentária, aos pedaços. A história gira em torno de André e de sua irmã gêmea, Andréa, por quem ele nutre um amor incestuoso. Segundo Carlos Felipe Moisés, A chuva imóvel “se arma em dois planos conjugados: de um lado há a auto-escavação a que o narrador se submete, implacável, à procura de um sentido para a existência; de outro há a observação do mundo exterior, a tentativa tantas vezes repetida quanto frustrada de sintonizar com os que o cercam.” Diante da impossibilidade de se encontrar nesse sufocante mundo de contradições, o protagonista envereda por um caminho sombrio de indagações profundas acerca de si mesmo, encontrando como única saída para sua existência o suicídio.

O púcaro pícaro

Sobre o quinto e último romance de Campos de Carvalho escreveu Antônio Olinto, quando de seu lançamento: “Com O púcaro búlgaro atinge o autor o ponto mais distante em sua caminhada. E finca em nosso chão a bandeira da insatisfação e da insubmissão, de que, durante muito tempo, Oswald de Andrade foi aqui o símbolo. É por isso que Campos de Carvalho isola-se na literatura brasileira e constitui caso sem paralelo. Daí sua posição de vanguarda. E sua solidão.”

O romance pode ser dividido em três partes. A primeira parte compreende os quatro primeiros capítulos: Explicação necessária, Os prolegômenos, Explicação desnecessária e In memorian, que, excetuando-se este último (na verdade, apenas uma nota), têm praticamente o mesmo teor e poderiam ser considerados um único capítulo, caso não tivessem sido fracionados pelo autor. A segunda parte compreende o corpo do romance, redigido em forma de diário, e a terceira parte, menor que as demais, é formada pelo diálogo final entre as três personagens centrais do livro, sob o título A partida (apesar dos pesares).

A ação d’O púcaro búlgaro tem início nos Estados Unidos — para ser mais preciso, nas dependências do Museu Histórico e Geográfico da Filadélfia, onde Hilário, o protagonista, se surpreende com a visão de um púcaro búlgaro —, depois se concentra por inteiro no Rio de Janeiro. Há muita agitação no apartamento de Hilário, nas ruas e avenidas próximas, por conta dos preparativos para a expedição de descoberta da Bulgária. Porém essa movimentação toda, o incessante entra-e-sai de tipos os mais curiosos, resulta sempre no oposto do que se espera: na inércia pura e simples.

Muito esforço é despendido durante meses seguidos na organização de uma expedição que não deslancha, que jamais ganha o mar, que termina (antes de começar) numa rodada de pôquer em pleno ponto de partida. Esse excesso de peripécias em torno da imobilidade — espécie de coito infinito sem orgasmo — é, ao que tudo indica, a melhor representação possível do movimento perpétuo do mundo moderno, em que tudo se encaminha mecânica e aceleradamente para determinados fins, que, de tão selvagens, jamais justificam o esforço.

As ações e reações de Hilário são tempestuosas, passionais, instintivas, mas não levam a nada: ao descobrir o púcaro búlgaro no Museu Geográfico ele retorna imediatamente ao Brasil, deixando no hotel a mulher sem dinheiro sequer para custear as despesas. Mas logo em seguida esquece-se do que pretendia fazer; põe-se a redigir um diário sem saber exatamente com que propósito; deambula pela cidade, angustiado sabe-se lá com o quê (é claro que com a descoberta recalcada, apagada da memória desde a sua chegada ao Brasil); enche o apartamento de estranhos, todos eles, na sua concepção, futuros expedicionários; promove debates e seminários sobre a existência ou não da Bulgária; cria o MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos dos Búlgaros); adia várias vezes a partida e por fim desiste de vez de se lançar à empreitada.

A trama do romance é dominada por dois interlocutores: Hilário e Radamés Stepanovicinsky, o professor de bulgarologia. São eles que comandam os demais, propõem e organizam, da maneira as mais estapafúrdias, a expedição à Bulgária. As outras personagens — Rosa, o velho nonagenário e a sua neta, Pernacchio, Ivo que viu a uva, Expedito e o psicanalista — ficam sempre em segundo plano, pouco se destacando do fundo narrativo, pouco se destacando inclusive uns dos outros. Todos esses coadjuvantes são representados como se fossem meros objetos, sem profundidade psicológica e sem nenhum traço de caráter: eles estão aí para servir de escada, para que Hilário e Radamés tenham onde se apoiar. São como marionetes, mas nesse ponto assemelham-se todos, em maior ou menor grau: os dois protagonistas e os coadjuvantes. Hilário descreve a si mesmo e aos outros sempre de fora: apreende apenas o seu comportamento exterior e lhes reproduz os diálogos, jamais penetrando na sua alma. Mesmo quando procura tratar de sua vida íntima percebemos que o narrador nada tem a dizer sobre ela, ou porque ele não a conhece ou porque ela simplesmente não existe. São todos títeres, o narrador, Radamés e os demais, pois não têm dimensão interior, sendo que as situações cômicas ganham mais intensidade graças a esse fato. A representação estilizada do mundo e das pessoas torna ambos estranhos e impenetráveis: “Os seres humanos tendem a tornar-se objetos sem alma entre objetos sem alma”, escreveu Anatol Rosenfeld.

Em contrapartida, esse recurso, empregado para deformar a perspectiva do narrador tradicional, também reveste as pessoas e a realidade com certo verniz mítico. O tempo da ficção deixa de ser o tempo cronológico, específico, em que se sucedem os fatos, e passa a ser o tempo ameaçador dos contos de fada, dos relatos grotescos e fantásticos. A forma objetiva de narrar, em tudo avessa à forma subjetiva do romance psicológico, privilegia a ação e a descrição, aproximando assim esse romance de Campos de Carvalho das epopéias homéricas. O púcaro búlgaro é a única epopéia possível nos tempos modernos, porque é a anti-epopéia das expedições exploratórias. Enquanto na Ilíada e na Odisséia temos a consumação da conquista por parte da aristocracia grega, aqui temos o fracasso de semelhante empreitada conduzida pelos anti-heróis da classe média tupiniquim. Lá o tom épico; aqui o seu contrário, o tom satírico — o ponto comum a ambos: o choque, o susto, o espanto, o estranhamento que os seres humanos e os objetos do cotidiano provocam, como se estivessem sendo vistos e nomeados pela primeira vez. Choque provocado por tudo o que é mais corriqueiro: nas epopéias homéricas o mundo dos deuses, sua rotina pouco rotineira e sua ética particular; n’O púcaro búlgaro o mundo dos homens, cada púcaro e cada búlgaro podendo existir ou não, cada membro do corpo podendo ser outra coisa, como a mão de Radamés que é, para todos os efeitos, seu gato de estimação.

* Com a colaboração de Josiane Gonzaga.

Nelson de Oliveira é ficcionista, resenhista, agitador cultural, organizador de antologias polêmicas e de sucesso. Nasceu em 1966, em Guaíra, SP. Escritor e doutor em Letras pela USP, publicou mais de vinte livros, entre eles Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Subsolo infinito (romance, 2000), O filho do Crucificado (contos, 2001), A maldição do macho (romance, 2002), Algum lugar em parte alguma (contos, 2006) e A oficina do escritor (ensaios, 2008). Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, Geração 90: os transgressores. Atualmente também coordena, em várias instituições, oficinas de criação literária para escritores com obra ainda em formação.

Sinvaldo Júnior nasceu em Uberlândia-MG. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia – UFU. Pós-graduando em Letras – Mestrado em Teoria Literária. Mestrando em Administração, com ênfase em organizações envolvidas em Artes & Cultura. Publicou artigos acadêmicos e jornalísticos em diversos sites, revistas e jornais, dentre os quais: "Os ensinamentos de Poe" (Jornal Rascunho, abril-2009) e "Para qualquer hora" (Jornal Rascunho, ago-2009). É pesquisador das obras de Campos de Carvalho e Drummond.

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O BULE - UM BLOGUE SOCIALMENTE RESPONSÁVEL - Um exemplar do romance de Campos de Carvalho, A lua vem da Ásia (José Olympio Editora), será sorteado amanhã, dia 26/02, às 23:00, entre os que comentarem a resenha, independente do teor do comentário. Em último caso, é só gritar "Eu queeeeeeero", ou coisas similares, que automaticamente estará participando do sorteio (mas leia a resenha antes, hein! Rãn). Boa sorte!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Teoria do Caos

Por Mauro Siqueira


Para Gisele Almérida

- Não acredito em você! – gritou para que ouvissem; o vagão de metrô em que estavam: cheio.
- Não é o que você está pensando?

(No Japão, *** resolveu buscar a filha no colégio, estava perto, e andar um pouco mais de bicicleta só podia fazer-lhe bem; parou para comprar doce de feijão.)

- Eu não acredito... Simplesmente, não acredito em você, ***!
- Já disse, não é nada disso que você está pensando! Ela é só uma ??? que eu não ??? há muito tempo! – falou sem olhar nos olhos, o vagão de metrô em que estavam: testemunha.

(Em @@@, uma pipoqueira vende drogas na porta de um colégio.)

- Você tem cinco minutos. Apesar de que nada do que diga mude o fato de... – falou baixando o tom e olhando para os lados; o vagão de metrô em que estavam: envergonhado.
- ***!, por favor, não se deixe levar pelo momento... – pediu com as mãos juntas – o vagão de metrô em que estavam: impaciente.

(Tinha um compromisso em uma hora, mas ao entrar no banheiro já sabia que não chegaria no horário. Sua namorada não ia gostar do atraso.)

- Não faça essa cara. Parte da culpa é sua – sentenciou pondo as mãos no bolso. O vagão de metrô em que estavam: cínico.

(Em Londres, ela dava outro barraco... tão jovem. Corria dos fotógrafos, os mesmos a quem mandara servir chá pela manhã.)

- Como assim “parte da culpa é minha”?!

(Se esconderam depois da educação física, ficaram em silêncio, quase mortos no armário de materiais esportivos; a respiração dela era ofegante, a dele parecia normal. O silêncio e os olhos dele eram perturbadores.)

- E por que você nunca me falou dela? – alteraram-se mais uma vez; ela colocando as mãos na cintura, ele cruzando os braços diante de si. O vagão de metrô em que estavam: antevendo o pior: “Vai dar em ...!”

(Ele sentiu um cheiro diferente ao desabotoar o primeiro botão. Ela arfava, o colo subia e descia como um bicho acuado; o sutiã de renda escolhida a dedo para aquela tarde, provavelmente era de sua mãe; ele já estava sem camisa. Fazia frio e ambos viam os vapores no ar. Era um cheiro de cereja.)

- Por que eu nunca falei dela? Ora, você o-dei-a que eu fale de outras garotas ou outras mulheres, até mesmo da minha filha, que mora no Japão, você não gosta que eu fale! Como eu poderia dizer pra você sobre ela, então? – discursou com cuidado, mas dessa vez olhos fixos, não desviou um momento. Ela sem ação, pensando. O vagão de metrô em que estavam: ihhhhh.

(Fazia frio e se sentia muito fraco, uma fraqueza que não era física; mas aquele compromisso era inadiável, não poderia suster mais aquela “coisa”, o novo nome que dera ao fiapo do que sobrara deles; entre os dois, restara o cachorro. Mergulhou o pincel na espuma, a navalha afiada ao lado brilhava.)

(O saco de doces acabara. As crianças e jovens minguavam à saída – cada vez menos apareciam. Em algum lugar na sua testa, uma veia se alterou, só mais cinco minutos, falou para si.)

(O sol caía; o céu alaranjado dando lugar ao lusco-fusco, num tom arroxeado de céu anunciando a noite, e o cheiro doce da pipoca feita na porta da escola era tudo; pôs a mão no bolso, sentiu o gelado das moedas, contou-as enquanto o sinal não fechava: dava para um saquinho e um baseado.)

(Conseguiu fugir dos fotógrafos. Entrou num bar e esperou no banheiro. Começou a ler as paredes.)

- ... então você quer me convencer que foi assim?! Que é “isso”! “Só” isso!
- Sim. Só.
- ...
- Dar de ombros não é argumento.
- ...

(Escanhoava com cuidado a garganta... lembrara do dia em que ela pedira para fazer a sua barba. O “não” foi veemente, no fim cedeu, como fazia a tudo que pedia. Dessa fez seria diferente. Parou. Algo mudara. Largou tudo, correu até seu escritório, pegou algumas folhas e uma bique cor azul e voltou para o banheiro.)

- Essa cara também não. Você vai precisar de muito mais, ***, para me convencer de que aquilo que testemunhei na porta da estação não estava acontecendo! Eu estava certa em te seguir... Eu lhe dei cinco minutos! A merda de cinco minutos!, e já estamos nessa merda há quinze! E a minha estação acabou de ficar para trás!
- Você estava me seguindo?!
- Sim, estava, e daí?
- “E daí?”, “E daí?” Como posso devotar a minha vida a uma mulher que não confia no que digo e, pior, que me segue?! Hã? Me diz!
Você gostaria que eu te seguisse todas as noites, quando você diz que vai a ***, mas na verdade vai à ***!
- Como, como você sabe disso?! Eu nunca te falei que era ...! Como você sabe?!
- Não interessa como sei, apenas sei. Você não pode me cobrar... – Falou com palavras duras; ela titubeou pela primeira vez, “Será?” O vagão de metrô em que estavam: um ruído muito estranho.

(Na secretaria, ninguém sabia dar por ela, ***, 16 anos, da turma *** especial; aflita, sua mãe perguntou se alguém tinha doces de feijão. Ninguém tinha.)

(No @@@ do colégio, comia o que sobrara da pipoca, estava com uma fome danada, aquele era do “bom”, pensou. Sempre era. A coroa da pipoca era a melhor traficante do bairro – a pipoca, havia melhores.)

(Doeu menos do que suas amigas disseram que doía, ainda não se sentia mulher, mas sentia algo diferente em si – a *** escorrendo pela perna talvez. O frio não diminuíra – nem um pouco – já vestira a meia e a saia; a calcinha, um presente, uma lembrança, uma parte dela para ele, que num canto, só os olhos no escuro e a fumaça de um cigarro; distante... “Não fora tão bom quanto pensei.” Ele se levantou muito rápido e...)

(“For a big cock, call me: 555- 8265 or just a coffee”, “Here, in the sacred place, all the vanity ends”, “Here completes all work by chefs”, “While you are shiting, there are a japanese guy studying”, “If also David Beckham do it, why not me!!!”, “I only I do doodles”, “Who read is a queer!”.)

(Num formigueiro em @@@, uma formiga-soldado desperta com os primeiros raios de sol; aquece-se lentamente limpando suas antenas com sua saliva, após concluir suas abluções, segue para acordar suas irmãs, vai repetindo o gesto, uma a uma, pouco a pouco. E a cada estimular de uma companheira, esta se encarrega da que está ao seu lado, repetindo no gesto quase infinito, o movimento de por um pequeno universo em andamento.)

- Você acha que é simples assim? Quanto tempo estamos juntos? Quatro meses? Cinco. Que sejam. Ainda é um ínfimo de minha vida para você supor qualquer coisa de mim. E pior, sair por aí me impedido de falar com qualquer que seja e me seguir...
- É meu trabalho, você esquece?

(Ainda ria quando parou de olhar as frases e abriu o livro de *** na página ### e começou a ler... Não havia mais nada de engraçado quando uma visita inesperada abriu a porta violentamente.)

(Deixou ela também uma frase naquele banheiro: “*** esteve aqui, fugida”. Saiu e pediu uma Guinness e no bar, tocavam ***, sorriu pensando em como gosta e se identifica com a cantora dos anos ***. Lá fora reconheceu um dos fotógrafos.)

- Não interessa que seja seu... que barulho foi esse? – No vagão de metrô em que estavam: só ouvidos.

(A bicicleta apanhava chuva, ela via pela janela da secretaria. Sobre a mesa do diretor uma revista chamou a sua atenção, pegou-o, enquanto ele, de costas para ela utilizava o telefone em busca de solução. Abriu aleatoriamente, não saberia ler nada no seu estado, porém uma frase chamou a sua atenção: “O bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas? – Teoria do Caos”. A revista não trazia a solução, mas não se importou, achou-a simplesmente bonita. Tampouco o diretor encontrou uma própria para ela.)

(No Rio de janeiro, um jovem casal discutia a relação no metrô.)

(Numa savana africana, um rinoceronte desperta de um sono intranquilo e sem saber destroi um universo com a pata.)

As pessoas da plataforma não entenderam quando a composição atravessou as suas vistas e não parou ali. Mas todos entenderam o som poucos segundos depois quando este rasgou o concreto, descarrilando oito vagões lotados – no carro em que estavam: só tiveram o tempo de se abraçarem e olhar um nos olhos do outro e compreenderem quase tudo.

(Na Tijuca, num banheiro, um homem interrompeu o fazer de uma barba para ali mesmo, sentar-se no vaso e seguir escrevendo uma história: "Teoria do Caos", por ***)

*Do livro de contos Simplesmente complicado, ainda inédito.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um vôo entre as estrelas e o chão

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Para Josiane (In memoriam)
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A dúvida é comparada ao vento de morte e de ruína, li em algum lugar isso. Onde? Não sei. Não lembro. Não quero lembrar. Foda-se. Fodam-se todos vocês, norte-americanos ou não! Essa nossa televisão norte-americanizada! Estados Unidos pra lá, Estados Unidos pra cá, cachorrinho do Bush, terroristas (como se eles não fossem), aqueles filmes retardados e retardantes. Um bando de imbecis que se acham os dez. E nós, os sub-imbecis. Deixe-me só, deixe-me respirar, posso? Então ela foi vindo vindo, chorando e eu pensei, pedirá mais o quê? Só sabemos pedir. Não, ela não. E dar? Não dar sexualmente falando, porque assim ela me dava muito, toda hora, eu era o dono (exclusivo?) do seu corpo. Nunca vi gostar de dar como ela (seria só pra mim?). Insaciável. Posições diversas. Novidades sempre. Ninfomaníaca. Todo, todo o seu corpo era meu. Porra! Televisão dizendo da guerra do Iraque (Bush o quê?! Que W. Bush morra com um tiro na testa. O mundo ficaria um pouco melhor. Os deuses com a sua não interferência agradeceriam) e a propaganda dizendo pra eu comprar isso aquilo este esse e aquele compre compre alugue você pode é a sua chance! Não tenho dinheiro pra isso tudo, seus filhos duma puta! Não percebem que não temos dinheiro pra tudo isso?! Somos brasileiros! Desligo-a. Melhor. Por que, meu amor? Por que, Josi? Ela veio vindo me beijando a boca, o rosto, o pescoço, seus lábios sobre minha pele negra, tirando minha camiseta, descendo a boca até tirar minhas calças e... suada e eu suando também, gostando também. A música (Ando tão à flor da pele: qualquer beijo de novela me faz chorar) que eu escutava não tinha nada a ver com o ambiente de amor e prazer que se criou quando ela entrou sorridente e sensual por aquela porta vestida com uma calça jeans que ficava maravilhosamente bem em seu lindo corpo e uma blusinha que apertava seus seios grandes (Barco sem porto, sem rumo, sem vela). Como ela era linda e gostosa. Sim, gostosa. Com uma boca linda e gostosa. Os seios, a barriga sem excesso, o quadril maior que a cintura não muito grande. Morena bronzeada, os olhos sensuais e verdes. E a boca grande linda de Angelina Jolie. Não perdia em beleza para a atriz. Só não fazia filmes, mas fazia sexo como ninguém. E como gostava! Seria amor? Ou puramente sexual o nosso caso? Três anos sexualmente ativos, os dois, um querendo mais que o outro (Oh, sim! eu estou tão cansado). E ela entrou séria mas fez quase tudo o que sempre fazia. Por que está mais recatada?, tinha vontade de dizer. Por que, Josi? E o nosso pacto de prazer sem restrições? Ela veio, tomamos um refrigerante, mas nunca tomávamos nada!, enrolamos um pouco, um pouco que se tornou muito e eu com vontade, a excitação aumentando aumentando e fui ao sofá em que ela estava sentada com as pernas cruzadas, mostrando-as abertamente, essas pernas brancas porém bonitas. Fui a ela, dei-lhe um beijo animal, forte e ela gostou da minha atitude. Eu estava acostumado com isso. Fizemos sexo, sexo e não amor, durante uns cinqüenta minutos. Apesar do longo tempo, sexo ruim. Estava muito, mas muito recatada. Saiu alegre, ela. Eu, não. O gozo anterior transformou-se em náusea para mim. Náusea. No outro dia ela veio vindo, negra, a negra mais linda que eu já vira, os cabelos longos e encaracolados, o rosto mais perfeito do mundo, sem manchas sem espinhas sem falha alguma. O corpo lindíssimo, magro e lindíssimo. Nua, escultura. Defeitos físicos, se tivesse, não os vi. Seu charme tentando me impressionar, e impressionou. Mas Josi! Por que tão diferente? E agora, nada de sexo oral? Por quê? E outras vezes viria, ela. Ela? Quem? Ruiva, morenas ao monte, poucas loiras e algumas negras. Sempre bonitas. Todas. Nunca fiquei com mulher feia. Sou bonito e exijo que pague na mesma moeda: com a beleza e os saberes sexuais, importantíssimos. Se não, está descartada. Mas Josi estava à minha altura: eu, um metro e oitenta dois e ela, um e setenta e sete. E vinha vinha mesquinha, não gostando do meu apartamento, mas aqui?, sentou, ofereci algo mas ela não quis, não seria capaz de beber algo que não fosse puro. Essas ricas! E ainda casada! Gosto delas, dessas falsas puritanas, doidas por sustentar uma imagem: a Virgem Maria. Se chamava Maria mas não era mais virgem. Talvez com o marido fosse, mas comigo não. Comi muito. Alguns dias, de três a quatro vezes. Como ela gemia! Por quê? Mas Josi! Nunca foste assim! E o verbo foste embelezou o que era sujo e feio. A Maria casada tudo que não fazia com o marido fazia comigo, como gostava de chupar! Mas sempre olhando pedindo aprovação. Josi não era assim, ela vinha sempre alegre alegre e sensual e querendo querendo até não agüentarmos mais. Mas agüentávamos. Sempre agüentávamos e nunca era o bastante. Sempre nos queríamos e nunca foi o bastante, nem para mim nem para ela. A casada me ligando me procurando pra sexo só sexo e sexo e nada!, e assim foi durante uns oito meses, até eu enjoar. Me enojei também da negra (e não digam, seus retardados, que era racismo!). Era apenas cansaço de tudo isso sem amor sem paixão. Apenas o prazer. E aquele oco. A negra que antes, nas primeiras vezes, não gostava de sexo oral. Sim. Depois gostou, aprendeu como ninguém. Sempre começava pelo meu órgão, depois puxava a minha cabeça para o seu. Peles negras se encontrando. Chorou quando eu disse a ela que não queria mais, nunca mais, entende! Chorou porque nunca mais daria o prazer que sempre lhe dera. Sentiria falta, como não? Eu, o expert em mulheres e seus mistérios sexuais. Um choro interesseiro. Apesar, a dispensei. Não te quero mais! E a noiva evangélica veio um dia, pela primeira vez, disse que vinha porque por que mesmo? Não lembro, só sei que veio, a puritana (puritana não sei, mas virgem, disse). Percebi quando tirei sua virgindade. Embora demonstrasse dificuldade, eu consegui. No sentido sexual, eu consigo tudo de uma mulher. O segredo? Paciência. E falsidade. Com a noiva virgem tive que beijar uns vinte minutos sua boca, mais uns dez o rosto o pescoço e a orelha até descer para os seios pequenos. Tinha vergonha do corpo, mas isso não foi grande problema. Beijei sua barriga e a virgem gemia. Olha que ainda nem tinha beijado seu sexo. Sexo? Mas beijei, além de descer para as pernas magras, morenas, brilhantes, mas natural, não eram bronzeadas. Demorei umas duas horas para terminar o serviço. Apenas duas horas para tirar todo seu pudor. E sua virgindade. Nua ao meu lado, na minha cama, ela sorria. Eu virava o rosto, disfarçadamente, para não ter que lhe oferecer o meu sorriso. Fiquei mais de um ano com ela. Continuava virgem do noivo, dizia. Só dera para mim. Eu fora o primeiro e o único. Estou honrado, dava vontade de dizer. Mas não dizia, não tinha vontade nem de conversar, às vezes. Outro dia ela foi vindo, avisou que viria, tinha a chave, entrou sem eu perceber e já foi logo me beijando forçado (gostava, a noiva virgem, dos beijos forçados, agressivos). Era tudo que eu não queria: ela viesse com aquela cara de insatisfeita sexualmente, de imatura sexualmente, de bitolada sexualmente. Assembléia de Deus, isso? Sim, era a igreja onde ela ia... comi-a, nesse dia, apesar de tudo, e duas vezes. Gozou, ela, duas vezes. Suada ao meu lado, na cama, me olhava, já apaixonada e disse: Larguei do meu noivo. Meu Deus!, pensei. E daí?, deu vontade de perguntar. Evitei falar alguma coisa. Ela percebeu o meu silêncio, o meu característico silêncio. Pela primeira vez teve iniciativa e tirou minha roupa que eu pusera pouco antes e caiu de boca, ao pé da letra. Foi horrível. Nunca sentira um sexo oral tão mal feito, babado. Eco. Tudo me causava nojo. Mas... e Josi? Josi já era uma miragem há muito. Lembro de quando nos conhecemos e ela disse quando eu disse que não acreditava em amor: Vou fazer você acreditar. Fez? Conversava tanto! E de um modo tão natural, sem forçação de barra. Tudo tão natural! E eu, desde o primeiro momento que a vi, na praia, fiquei admirado. Como era linda! De sutiã, nua, com roupa (e qualquer uma), como era linda! Contemplava-a muito. E a olhei quando veio vindo chorando chorando, será que ficou sabendo algo de mim?, pensei. As lágrimas caindo dos olhos verdíssimos pela pele morena, lisa, seca, sem mancha alguma, ou cravos. Apesar de tudo que você faz, eu te amo, eu te amo!, entrou dizendo e me abraçando. Nunca a vira assim, resignada. Sempre fora forte; não áspera, ao contrário, sempre carinhosa. Agora sofro toda a idealização que fizera de mim, e eu dela. Nos adorávamos juntos, sempre, a todo o momento. Batem na porta e não atendo. Bate, bate. Sei que é mais uma mulher daquelas que exigem um príncipe encantado mas é feia, dura, ruim de cama e, como sempre, carente. Sempre carentes, elas. Por carência elas fazem tudo: dá pra outro (traem), matam, abandonam pai, mãe e filhos. E se dizem inocentes, as falsas. Justificadas, as dissimuladas. Não as agüento mais! Foi-se minha paciência junto com o meu amor. Foram-se. Para onde? Onde procurá-los? Por onde andar e encontrar a alegria fugaz mas antes existente? Não há saídas. Só há lembranças. E lembro da morena desprovida de vaidade que conheci uma semana atrás. Por incrível que pareça não a levei ainda pra cama. Não demorará. Mas na boate onde nos beijamos pela primeira vez ela já foi logo pegando firme, se é que vocês me entendem, olhe, não sou vaidosa mas sou gostosa e fogosa! Em pleno século XXI há ainda mulheres que não usam batom, não se maquiam, não se disfarçam? Sim, há: ela. Mesmo assim e talvez por isso se torne tão bonita, a morena clara, cabelos lisíssimos, brilhantes, bem tratados. Um corpo bonito e uns olhos mel. Muito bonita. Não demorará que ela me ligue e depois gema aqui na minha cama. Mas ela tem namorado, foi o que disse. Foda-se. Problema dela. Eu não tenho. Só as lembranças... Quando Josi veio vindo chorando, pela primeira vez entrou chorando no meu apartamento, sempre entrava feliz, sorrindo, quando ela veio vindo me abraçando, pensei: O que será? Eu te amo eu te amo eu te amo, saiba, insistia em dizer. Sei, murmurei. E eu também. Mas..., começou. Não terminou. Por quê?, perguntou. E eu sabendo do que se tratava falei: Você é insubstituível. Fomos para a sacada. Quantas vezes fizemos amor ali, à noite, na sacada. As estrelas e o chão, pólos distantes. E nós, no décimo quinto andar, no meio. Ficamos ali olhando as casas que se estendiam e outros prédios. E as luzes já acesas. O sol se fora. Josi mais calma. Eu, evitando tocar no assunto, e lhe perguntar porque estava chorando, disse: Vou pegar uma água pra você. Fui. Uma semana antes ela me falara algo, mas sorrindo. Deixa de bobeira, eu respondera. Não fale isso. Mas no fundo vaidoso por ouvir algo assim. Lembrei disso, esqueci a água, corri e Para Eliza de Beethoven tocando no vizinho, corria corria corria à sacada. Meu Deus! Tropecei na mesinha no meio da sala. Josi! Josi! A resposta: um grito já distante.
----E lembrava de quando ela (sorrindo) me sussurrara, sua forma de dizer eu te amo: Por você... Por você eu me mataria.
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*Do livro Manicômio, ainda inédito.
** O conto anterior, da série Amor amor: ruínas, publicado AQUI
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

O minadouro

Por Rodrigo Novaes de Almeida

A partir de hoje escrevo crônicas aqui n’O BULE. Mas inéditas mesmo, só a partir de março. Por enquanto, das antigas... Publicada no meu blogue Superfície Líquida. Nele, destaco ainda: “Onívoros vulgares”, coluna 14; “Quando um pacifista vai à guerra”, coluna 21; “Znam znam”, coluna 24; “Flip 2009 em superfícies líquidas”, coluna 25; e, também, a coluna especial “A queda no mundo”.

Mitos de fundação

“Depois, quando aprendi a ler, devorava os livros, e pensava que eles eram como árvores, como bicho, coisa que nasce. Não sabia que havia um autor por trás de tudo. Lá pelas tantas eu descobri que eram assim e disse: ‘Isso eu também quero.’” (Clarice Lispector)

Daqui a bilhões de anos os sóis se apagarão, não haverá novas nascentes de estrelas e o universo entrará numa era de escuridão. Nós, os macacos beligerantes, não estaremos mais aqui. Nem as nossas preces e suas catedrais de sangue. Nem os nossos livros e suas fogueiras de intolerância. Portanto, o que fazemos dia após dia é, em verdade, um esforço inútil, um desperdício despropositado de energia e de secreções. Uma crônica, algumas palavras, diante disso é menos do que aquele grão de mostarda, o célebre grão de mostarda do deus crucificado.

Uma afronta à finitude de todas as coisas. Isto é o homem. É do homem escrever para afrontar o fim. Porque a pulsão do homem é o acabamento de tudo – até da morte. De tal modo, e para buscar o humano que existe em algum lugar dentro de mim, escreverei essas crônicas, farei esse esforço inútil de dar sentido àquilo que não tem sentido. Mas farei isto com certa alegria. Não a alegria dos idiotas, mas a alegria daqueles que reconhecem a idiotia do mundo e mesmo assim gozam. Gozam porque podem e querem gozar.

Pensamentos em fluxo

Do terceiro andar do edifício, eu vejo o pátio cheio de jovens universitários, um muro e, além deste, um outro pátio, onde crianças entre quatro e seis anos brincam de ciranda. Volto o olhar para o alto, vejo o Cristo Redentor e um céu azul de uma típica manhã de inverno no Rio cobrir toda a cidade.

Penso não haver tempo passado e tempo futuro, apenas o presente, contraditoriamente perecível e absoluto. Penso no cigarro que fumo enquanto escrevo. Vejo a fumaça, vejo a brasa, vejo as cinzas. Penso na questão do olhar, do olhar que observa e do olhar que contempla. Penso em fluxo, mergulhado nos pensamentos em fluxo. Defino o homem. Dou novo nome às coisas.

Lá pelas tantas... Árvore se chama janela. Janela se chama copo. Copo se chama girafa. Girafa se chama árvore. Homem é mármore. Então, nesta nova ordem das coisas tem-se um novo sentido do mundo. Agora o que vejo, eu vejo através do copo, e através do copo vejo o mármore sob a janela. Um mármore vagabundo pensando em árvores.

Jogo o cigarro no chão, cigarro que se chama libélula e chão que se chama queijo, e piso na libélula para apagá-la; depois a vejo amassada sobre o queijo. Penso novamente em fluxo, que agora se chama perdão, e mergulhado em perdão redefino o mármore no mundo. Mas para o mundo não dou outro nome, porque o mundo precisa permanecer mundo, contraditoriamente perecível e absoluto.

O ideal mesmo seria mudar o nome do verbo. Penso, fluídico.

PS.: Parte desta crônica é de 12 de setembro de 2007 e outra parte de 30 de setembro de 2008. Colunas 2 e 3 do blogue Superfície Líquida.
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Jamé Vu - Overdoses da Parte I

Por Homero Gomes

DIÁLOGO NO ÔNIBUS
poderia ter sido comigo só que não tenho passagem como é que vai seu coração como assim deixou seu coração na praia ou já tinha deixado ele aqui êta Fulano cê tem cada pergunta poderia ter sido com você como anda seu coração

O ESTUDO DIGNIFICA O HOMEM
que Sábado de merda ficar estudando no final de semana não é programa pra ninguém mesmo que esteja chovendo que história eu vou contar se não há história só se eu contar que James Langston Hughes era um poeta norte-americano que nasceu em 1902 na cidade de Joplin que introduziu o ritmo do Jazz e do Blues no seu versos que se ocupam na maioria das vezes da vida negra ele era negro dos problemas raciais da história dos negros da sua herança influência a sua mensagem era a liberdade me desculpem mas estudei poesia de língua inglesa o dia inteiro digo estudei porque este trabalho já me encheu vou assistir o filme Blade deve ser interessante acho deve ser tem sangue somos o estrume da sociedade do espetáculo

TOURADA PORTUGUESA
um cavalo sem rédea guiado nos joelhos lanças nas mãos cutucando o touro depois cansado vencido levado nas unhas derrotadamente arrastado para fora da arena espetáculo estranho retrato com verdade do espírito de porco português da covardia por isso talvez quemsabedeus Saramago tenha fugido disso pruma ilha que venta sem parar mas sem velas nem mar rochas vulcânicas só

ABBU AMMAR
morre o terrorista que ganhou o Nobel da paz luta impossível anos e anos de ocupação culpa da ONU-EUA muitos mortos ainda virão irão terror pela paz e liberdade bombas fumaça cogumelos de sangue Arafat é Max Ernest criador do dripping inspirando muitos prósperos terroristas retratistas do inconsciente ele furava latas de tinta deixava balançando sobre a tela é o acaso permitido pela liberdade Pollock outro terrorista bombas na tela explosões de cores faz dança dança com as mãos com a tinta improvisação do jazz o próprio sangue ocupando o próprio território explodir o próprio lar para reconquistá-lo próximo Nobel da paz Bin Laden

ANNÉES FOLLES
a histeria que senti ao ver pela tevê aquele imenso H vir ao chão me deixou chapado foi uma das maravilhas do mundo são quantas até agora nove não oito seilá uma verdadeira obra artística marco de nossa era espetacularmente incrível se estivesse vazio nada só concreto mas foram quase 3000 pro saco os órfãos vão destruir a sociedade como a conhecemos pirotecnia fantasmagórica surreal e vai ficar cada vez pior tenha fé nisso mesmo que sem fé nenhuma

O HAITI NÃO É AQUI
ai ai ai te ti Haiti ai de ti que Toussant já não vive agora o número de brancos azedos com sungas camufladas está aumentando exponencialmente ai de ti Haiti já não é a primeira vez que expulsam um governante povo de sangue quente que bom acho melhor que o sangue de barata que corre em nossas veias tá chato em Pindorama aqui tudo só tédio Lula foi pra China e a soja começou a fermentar embarcou depois pensaram que Pará era Paraná problemas de uma língua monossilábica entoacional

Próximo domingo é 'Dia de Índio'
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

'Mulheres' - parte 02

ESSA MULHER QUE EU NÃO SEI QUEM

Por Claudio Parreira

RÁPIDO ASSIM: eu vi a mulher, ela se percebeu sendo vista, entrou no espelho e desapareceu.

Apaguei o cigarro antigo com as botas mais antigas ainda e fui atrás. O espelho permitiu a minha entrada sem perguntas. Os espelhos, afinal, nunca perguntam.

Chovia peixes quando botei os pés pela primeira vez naquela terra escura. Uma única luzinha acesa lá longe. Uma casa, talvez um olho. E nada da mulher.

Essa coisa dos peixes caindo do céu não é milagre porra nenhuma: dói pra cacete. E incomoda. A muito custo avancei alguns metros, sempre tirando os peixes do caminho, protegendo a cabeça dos peixes maiores, as botas esmagando os peixinhos. Mas a mulher, encontrá-la, é claro que sim. Com peixes e tudo.

A grande boca escura do céu soprando espinhos no meu rosto. Soubesse das dificuldades, teria ficado na minha. Ou não, porque o que interessa mesmo é a aventura, e uma mulher que se deixa escapar por um espelho não é sempre que.

A terra molhada de peixes, a luz brilhando ao longe. Os meus passos. O coração saltando aos solavancos. O nome disso é dor. E sem essa de pensar que a dor nos torna mais fortes. Isso é conversa de almanaque. A dor nos torna mais doloridos.

Avanço, portanto, de dor em dor, a alma dolorida. Ao desaparecer pelo espelho a mulher deixou uma mensagem bem clara atrás de si: não me acompanhe. Mas eu não tenho mais nada a perder, já perdi. De tal maneira que li o não me acompanhe com as letras do vem meu amor. Eu, que apesar de tudo ainda procuro o amor.

E é esse amor-peixe que me golpeia a cabeça, que me encharca a roupa de escuridão, o amor é essa luz que sei ao longe mas nunca alcanço.

Um caminho é feito de todos os outros caminhos: esquerda direita em frente tanto faz. O caminho é aquilo que se apanha pelo caminho: uma rosa, um sentimento, um monstro.

Porque assim, enfim livre de uma vez por todas dos peixes e das dúvidas, fui em frente, o açoite dos espinhos cedendo lugar ao afago de mãos invisíveis. A mulher, sim, estava lá em algum lugar. Cheia de poesia e facas, a boca pronta para o beijo ou mordida. A mim só restava conferir. Fixar a cara do amor diante da minha, respirar o seu bafo, provar a sua cor. Porque ainda acredito, talvez minha única crença, essa, no amor. Agarrar o amor pelos ombros sacudi-lo até enchê-lo de pavor de mim; abrir os seus olhos para mim. Sim, eu existo! — gritaria para o amor, que tem me ignorado desde sempre.

E de repente o amor nada mais é que essa mulher que eu não sei quem, que entra pelos espelhos como quem respira, que flutua entre a chuva de peixes.

Uma mulher que me escapa. Subitamente percebo que encontrá-la, alcançá-la, seria a chave de todos os mistérios, a resposta das respostas. E também o fim, porque sem mais nada a esclarecer, pra quê?

Parado no meio do caminho, a luz ao longe, um olho?, os peixes voltam a cair do céu com redobrada dedicação. Voltar pelo mesmo espelho não é uma alternativa, é covardia; permanecer aqui sob a chuva de cardumes inteiros é burrice. O quê, então? As dúvidas do amor, sempre.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Esporo

Por Ana Paula Maia

Para Simone Campos

Rosália olhava para o forno fazia cinco minutos. Costumava deixar o alicate de unha por dez minutos dentro do forno para esterilizá-lo a alta temperatura. Trabalhava como manicure fazia quinze anos. Foi cutilando e pintando unhas que pagou seu primeiro grau incompleto, o aborto do filho do Tonho e comprou o material de construção para a obra de sua casa de quatro cômodos. Pintou o interior de amarelo claro e parcelou a mobília nova em 72 prestações. Durante os cinco minutos ali parada, pensava em quantos alicates teve nos seus quinze anos de profissão. Não sabia contar muito bem.
O forno apitou e da recepção gritaram seu nome. A cliente das quatro da tarde havia chegado. A cliente das quatro da tarde era uma mulher gorda e peluda. Para fazer as unhas do pé precisava se inclinar na cadeira ao colocar os pés no colo de Rosália. Em seu colo, também haviam passado muitos pés. Nenhum filho. O único abortado a deixou sequelada. Era tão estéril quanto os seus alicates. Essa coisa de esterilizar tudo é que havia acabado com ela.
Viu a cliente. Suspirou sentindo-se cansada. Havia café fresco na garrafa térmica sobre uma bancada. Ela apanhou um copinho descartável e despejou o café. Saía fumaça. Ela bebeu sem pressa, apoiada na bancada. Refletiu por algum tempo. O que Rosália refletiu e ponderou nunca poderemos saber, pois os pensamentos são silenciosos. Nem mesmo para um narrador onisciente é possível conhecer todos os segredos de seus personagens. Eles, entre pensamentos silenciosos, retornam de seus estreitos abismos e podem surpreender até o seu narrador.
Rosália apanhou na bolsa um alicate velho, cego e doente.
A mulher deixou os pés de molho e ela começou a cutilar as unhas das mãos. Rosália queria ver um pouco de sangue. Sabia que a mulher não iria gostar, mas arrancou o primeiro bife. O sangue escorreu rápido.

– Está bem encravada, né?

A mulher confiava em Rosália. Sabia que seus alicates eram sempre esterilizados. Depois do primeiro sangramento, não parou mais. Retalhou cuidadosamente os dedos da mulher.

– Rosália, dona Esmeralda precisou tomar antiinflamatórios. O que deu em você? A mulher quase foi internada.

Rosália baixou a cabeça e não disse nada.

– Você tem alguma explicação pra isso? – insistiu a dona do salão.

Rosália deu de ombros e saiu da presença da mulher mascando um chiclete.

Foi despedida e logo contratada em outro salão. E sempre que podia cortava mais fundo a cutícula. Tornou-se tão habilidosa que suas pequenas investidas não eram nem sentidas. Usava um anti-coagulante em forma de bastão e a satisfação aumentava.

Descobriu que uma de suas clientes havia sido contaminada com o vírus HCV.

– Hepatite C, Rosália, é isso que esse vírus dá.

Rosália fazia as unhas dessa cliente duas vezes por semana. Sempre a sangrava de leve e depois usava o alicate em outras. Não conhecia bem a doença, mas sabia que era crônica. A palavra crônica lhe parecia muito séria e importante. Tempo depois, a cliente morreu de câncer no fígado. Cansaço, náusea e dores no corpo passou a fazer parte da rotina de suas clientes. Todas estavam adoecendo, porém a causa, dizia Rosália, era estresse.

– É estresse, dona Conceição. Tá todo mundo muito estressado hoje em dia.
– Tão dizendo que tem um andaço de hepatite C por aí. A gente só pode fazer as unhas com quem é de confiança... assim como você Rosália.

Ela não respondeu. Mas deu de leve uma beliscada na velha que retraiu a mão. Rosália se desculpou.

Pediu demissão dias depois e conseguiu trabalho em mais dois salões a vinte quilômetros dali. Depois da confiança depositada nela, começava a beliscar suas clientes. Cansaço, náusea e dores no corpo. Estava na hora de mudar novamente.

Meses depois de circular em tantos salões e contaminar tantas clientes, às vésperas do natal, recebeu um buquê de rosas cheio de espinhos. Levou muitas espetadas nas mãos quando colocava as rosas num vaso de louça. Rosália nunca havia recebido um buquê de rosas em sua vida. As rosas murcharam e as mãos de Rosália inflamaram, pois os espinhos entranharam em suas carnes até apodrecê-las. Podres, foram amputadas. Quando chegou a primavera nasceram espinhos nas suas mãos. Nunca soube quem lhe enviou as rosas. Nunca mais pôde tocar em nada sem ferir ou fazer sangrar.

Ana Paula Maia, nascida no Rio de Janeiro, é autora dos romances O habitante das falhas subterrâneas (7 letras, 2003) e A guerra dos bastardos (Língua geral, 2007). Em 2006 publicou o primeiro folhetim pulp da Internet brasileira, Entre Rinhas de cachorros e porcos abatidos, transformado recentemente em livro (Record, 2009). Atualmente divide-se entre a republicação do seu primeiro romance em folhetim no site http://www.cronopios.com.br/, a publicação de crônicas em http://www.vidabreve.com/ e os últimos retoques em Carvão Animal, seu romance que conclui a Saga dos Brutos, iniciada com as novelas que compõe o Rinhas. Tem contos publicados em diversos sites, revistas e antologias, entre elas 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2004), organizada por Luiz Ruffato e Sex´n´Bossa (Mondadori, Itália, 2005). Bloga em http://killing-travis.blogspot.com/
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Poesia, Beatriz Bajo

um branco espesso
por dentro do vidro
mão espalmada no vidro
ele batia com força
não batia pra sair
mas pra permanecer
grito mudo da mão
sem destreza
grito tênue da chuva sobre
os olhos que não lágrima
sobre o corte que o
ruído rabisca por dentro
desejo que não derrama
segredo sem desmanchar
entre as digitais que lambuzam
o vidro que não grita
que não murcha fora das
palavras
lavradas de forte impulso de
espalmar a porta
à tarde do sopro no dedo
ao pôr de todos os medos
cinzenta fome tida
coletiva
sonha franzina criança
sonha com as mãos
de pegar
sonha com as mãos de reter
sonha ser vista
sonha ver
resultada saliva
que não regurgita.
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abrolhos

todos os invólucros
são eternos inexplorados
todos os binóculos
... singelos inconformados
______ os lucros
... infernos caramelados
______ __ ósculos
... violoncelos famigerados
massa corrida
de
erguer as tendas
roer as máscaras
desenxergar
repetir as bocas
oferecidas
como as estrelas
por ninar
fiapos
imantar pedaços
bélicos
de beliscar
os pudicos invernos
invertidos
para
o mar
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Beatriz Bajo (São Paulo/SP, 1980) - Poeta, tradutora, professora de língua portuguesa e literatura, especialista em Literatura Brasileira (UERJ) e aluna especial do mestrado em Letras (UEL). Participou de antologias e mantém publicações em revistas literárias como Coyote e Polichinello e espaços virtuais como Portal Cronópios, Germina Literatura e Confraria do Vento. Traduziu o livro Respiración del laberinto, do poeta mexicano Mario Papasquiaro, pelo Coletivo Dulcinéia Catadora e trabalha atualmente com uma novela, também mexicana, pela editora LetraSelvagem. Seus livros estão no prelo, estréia com A face do fogo, que será publicado este ano pela Annablume (selo [e] editorial) e insiste em cultivar o blogue http://lindagraal.blogspot.com/. Morou por 17 anos no Rio (RJ) e vive há 3 em Londrina.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Beócia carta para um mundo igualmente etc.

Por Rogers Silva
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É uma carta, saiba, caduca como o mundo, como eu, que dele faço parte, embora não concorde com seu sistema, criado por todos, menos por mim, motivo justamente de eu não concordar. Uma carta de pedido de socorro, como queiram, sabendo eu que nem Deus já poderá me ajudar, com o perdão do clichê. Uma carta de quem sorriu a vida inteira, para os outros, para mim mesmo no espelho e às vezes para ninguém, intuído sobretudo em não desaprender do artifício duro (sorrir), dado este mundo idiota, para não dizer caduco novamente, ou caótico, repetindo o c. E por isso – pelo meu riso ora tresloucado e sem sentido, de alegria, ora para camuflar a angústia ou náusea que aqui dentro se permitiram (e não eu permiti) entrar – e por isso me tacharam louco, apesar de eu nunca acreditar num ser humano que não seja eu mesmo, não obstante a minha dita loucura, ou lucidez, como prefiro chamar, amarga. E amargo o choro de agora, entremeio à noite de estrelas faiscantes, creio eu, pois estou olhando para o teto, e não para o céu. Prefiro imaginar as noites a nunca ter as olhado, independentemente se feias ou bonitas. O choro alcança o paroxismo, não fazendo a mínima idéia do que isso significa, enfim, é um choro de doer, com lágrimas, soluços e tudo. E música. Sim, a música é para dar poeticidade às palavras, à carta, que, se chegar onde pretendo, fará muito sucesso, já decepcionado eu de somente fazer sucesso depois de morto. Morto? Pois é, escrevo esta justamente para dizer-lhes, quem quer que sejam esses lhes: vou me matar, ainda que não saiba como. Sei que quero uma morte tranqüila, sem sangue, como assim não o foi minha vida, bem insignificante, posto que mais aventureira e cheia de emoções que a sua. Cheia de música, de choros, de danças, às vezes macabras, de incertezas sobretudo – daí de ser melhor que a sua, banhada em rotina e lucidez, embora pseudo, com o perdão do grego. Minha vida foi farta de paixão, na maioria das vezes censurada, por ser direcionada ora para prostitutas ora para mulheres casadas (e infelizes) ora para pessoas do mesmo sexo, a saber, masculino. Quero delicadamente lhes falar que enfiem suas tradições, seus sistemas e sua religião no meio do CU, não sem antes de limpá-lo, para dar-lhe uma aparência melhor, visto que é o que mais lhes preocupa. Vou pegar esta carta, ou missiva, para soar mais erudito, e colocá-la numa garrafa, sabendo de antemão que teria mil alternativas mais criativas. Prefiro, porém, que a garrafa e conseqüentemente a carta (posta dentro) tenham vidas próprias, mesmo que para isso corram o perigo de o mar, como sempre indeciso, não saber aonde levá-las, ou deixá-las afundar, o que seria poético no entanto estéril, pois creio eu que os peixes ainda não aprenderam a ler, oxalá nunca aprendam!, para não ter que ler tantas porcarias que têm sido escritas, dentre elas isto, que se nomeia (eu nomeei) carta. Inclusive, a título de corroborar o assunto, se a água decidisse entrar na garrafa, a folha, não plastificada, molharia, se para o fundo do mar afundasse, e rasgaria, ou se desmancharia. Dada a cena que esmaga a minha mente já esmagada (se não, não estaria aqui, e assim), decidi, por unanimidade, ou seja, um voto a zero, suicidar-me. Vejo palhaços, e sinceros (o que é pior) mortos, com um sorriso nos rostos, em rostos (para ser mais exato) feios e iguais ao meu – por isso do meu arrependimento e da conseqüente decisão de me matar, porque não vejo, por enquanto, alternativa melhor (se tem, por favor, venha me informar qual, no máximo em vinte minutos). Liquidei quem não merecia ser liquidado. E, então, morri (prenunciando o futuro), posto que depois, daqui a pouquinho, após eu acabar de escrever, colocar na já citada garrafa e jogá-la no mar, ou num rio que para lá vá, como todos os rios, acredito eu, contrastando com o resto, no qual já não acredito mais, sobretudo em deuses. Fiquem eles com sua cômoda condição de não-ser-humano. Se aqui estivessem, veriam minhas lágrimas e, junto, o riso convulso que me toma por completo, inclusive na altura da cabeça do pênis, já muito não usado. A caneta tá... falh... por... porra! Troquei de caneta, agora vermelha, da cor do sangue de meus companheiros, que aqui estão, embora mortos. Que suas almas vão para o céu, ou inferno, dependente se foram bonzinhos ou não. Deus sabe de tudo, bom ou ruim para Ele. Mas eu não! E não sabia quando atirei, e rindo, alto e descaradamente, em todos, com suas mochilas, cadernos, canetas e outros acessórios completamente desnecessários, para não citar, por simples questão de ética educacional, os acessórios-professores (ou mestres), noventa por cento deles também dispensáveis, sobretudo os arrogantes e cheios de sabedoria, falsa, deixemos bem claro este detalhe. Culpo-os por me deseducarem, apesar de eu ter aprendido a somar, dois mais dois é igual (ou são iguais?) a três. Deus meu, Deus meu, por que nem o prazer de me desamparar me deu, já que nunca esteve próximo a mim? Somando os prós e os contras, fico feliz no que fiz: dois revolucionários a menos no mundo, daqueles que citam Marx e enchem a boca ao falar de comunismo, mas não têm coragem de dividir o pão com o melhor amigo. Menos três ou quatro mulheres bonitas porém intransponíveis (por que se arrumar tanto, se não transa com ninguém, ou tão-somente com quem tem dinheiro?). Menos cinco veados que olhavam para o meu pinto quando eu mijava no banheiro, provavelmente para compará-lo com os pintos alheios, nos quais já burilaram, e chuparam. Menos um débil mental (odeio débeis mentais) de óculos que custava conversar, mesmo sendo o orador do local em questão. Menos o Meu amor, o Meu grande amor (e disso não me sinto feliz, mas sim desesperado, e então começo, novamente, a chorar), o Amor que, juntos, ríamos (alto e descaradamente) e chorávamos, na cama ou pelados, no banheiro ou com roupas, mesmo dormindo, nos sonhos, harmônicos como o céu e a terra, não levando em consideração os seres que lá e aqui se encontram, que, vamos ser sinceros, nunca combinaram, deuses e humanos. Olho no espelho (no espelho da minha imaginação) e vejo um rosto e olhos vermelhos, posto que azuis no meio do branco avermelhado. Olho no espelho (no espelho da minha imaginação) e vejo um cara gordo e risonho, que mais parece um babaca, daqueles que riem pela coisa mais idiota do mundo, também idiota, palavra idiota, usada por um narrador (ou cartista) idiota. Porra!, e esse choro agora convulso? Deus meu, Deus meu, se não me abandonou (partindo do pressuposto que já esteve alguma vez comigo), preferiria ter Você me abandonado e não Meu amor, já que fazíamos amor, e ríamos, coisas que nunca, eu e Você, ser humano e deus, nunca faríamos juntos! Olho no espelho (idem) e não vejo mais nada, pois as lágrimas são tantas! Tantas! E embaçam, turvam a visão, como a pouco aconteceu – e disso, dessa cegueira, ou lucidez exagerada, adveio a catástrofe (falo do Meu amor, e não dos outros). Já não sei o que falar. Bastaria a folha em branco, falaria mais do que mil palavras, estou chutando, não contei quantas escrevi, nem vou contar, tenho pressa em me matar. (Uma risada, solta e sincera, ao vê-los no chão, ensangüentados mas dignos, nobres). (HA-HA-HA!, rio para não chorar, mais). Todavia choro. Pela última vez. Ainda bem. Não vou dizer adeus. Só direi meu nome, se a caneta nã... se... porr...
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*Do livro Manicômio, ainda inédito.
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