domingo, 31 de janeiro de 2010

'A liberdade é amarela e conversível', de André Giusti


A liberdade é amarela e conversível é o quarto livro de contos de André Giusti, escritor carioca radicado em Brasília há onze anos. No livro, o segundo do escritor lançado pela Coleção Rocinante, da Editora 7Letras, André Giusti se consolida como um autor urbano, em que a grande cidade é o palco de situações vividas pelo homem dessa primeira década do século.
.
Escrito entre 2003 e 2006, o livro é composto por doze contos sobre homens de classe-média, escritos por um homem de classe média, embora não auto-biográficos.

.Os doze contos do livro são histórias de desemprego, divórcio, preconceito, convivência, sonhos de infância, filhos, morte e vida, contadas com lirismo, ironia e até mesmo humor. Na orelha do livro, o crítico e escritor Alexandre Pilati diz que André Giusti tem narrativa madura para mostrar ao leitor a poesia inusitada do que é corriqueiro, do que encontramos em nossos quartos, cozinhas e banheiros.
.

.Sobre o autor
André Giusti tem 41 anos. Antes de A liberade é amarela e conversível, publicou Voando pela noite (Até de manhã) – indicado ao Prêmio Jabuti - e A solidão do livro emprestado, os dois pela 7Letras. Pela LGE Editora, publicou Eu nunca fecharei a porta da geladeira com o pé em Brasília, no qual narra os conflitos de um homem em seus primeiros meses na capital do país. É jornalista, chefe de jornalismo e âncora da rádio BandNews FM.
Email: giustiandre@hotmail.com
Site: http://www.andregiusti.com.br/
Blog: www.andregiusti.com.br/blog
Twitter: www.twitter.com/AndreGiusti568

..Caro leitor, será sorteado 1 (um) exemplar do livro A liberdade é amarela e conversível entre os seguidores deste blog.
Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar e participar do sorteio.
Daqui a uma semana (08/02) divulgaremos o contemplado somente aqui n'O BULE.
.

sábado, 30 de janeiro de 2010

2883 agradecimentos

Queridos leitores, seguidores e colaboradores d’O Bule,
.
O nosso blogue completou um mês e não poderíamos estar mais felizes. Nesse primeiro mês, da tarde do dia 31 de dezembro ao final do dia 30 de janeiro, foram 2883 visitas feitas por 1795 visitantes únicos de 110 cidades, do Brasil e de outros países. Média de 60 visitantes únicos e 93 visitas diárias. O tempo médio de permanência n'O BULE é de aproximadamente 4 minutos. Clique aqui e veja o gráfico em PDF. Tratando-se de um blogue tão recente, são números expressivos. Ah, estamos com 93 seguidores! E as colaborações continuam chegando ao nosso email: coisaprobule@yahoo.com.br. Envie o seu texto!
.
Além do mais, aqui foram publicados 6 textos de colaboradores e 2 releases de novos lançamentos. 3 livros já foram sorteados, e mais uns 10 estão na lista para serem sorteados nos próximos dias, dentro os quais A liberdade é amarela e conversível (André Giusti), Portal Neuromancer (org. Nelson de Oliveira), De vermes e outros animais rastejantes (Mauro Siqueira), As cidades (Francisco Pipio), Rapsódias (Rodrigo Novaes de Almeida) etc. etc. etc. Sendo assim, caso ainda não seja um seguidor d’O BULE, aproveite para se tornar e participar dos sorteios. Se se interessa em divulgar o seu livro, envie para coisaprobule@yahoo.com.br um release (com sinopse, imagem de capa, ficha técnica, minibiografia do autor e informações sobre formas e locais de compra do livro).
.
O objetivo é ampliar mais ainda esses números; eles são importantes porque significam leitores, escritores, amantes da literatura, que se expressam, divulgam o seu trabalho, discutem a leitura e a escrita.
.
E mais:
.
>>Lançamos a revista O BULE, número zero (com todos os textos publicados no blogue até então), que pode ser baixada diretamente Aqui.
>>Estamos no Twitter (Aqui) e no Facebook (Aqui).
>>Dispusemos um Assine O BULE (embaixo, à direita), a partir do qual receberá as novidades do blogue no seu email.
.
No mais, agradecemos aos nossos 1795 visitantes. Continuem conosco.
Saudações literárias.
Editores d’O Bule.
.

Dilema (ou 47 Segundos)

Por Mauro Siqueira

--O que passa na cabeça de alguém com o cano de uma arma, ainda quente, entre os olhos?... Não perca tempo tentando adivinhar o que é, eu respondo: a porra de uma maneira de sair da situação, sem a necessidade de uma cirurgia em que o resultado não seja você mesmo babando pelos próximos vinte, trinta anos ou, então, como fertilizante orgânico de um campo santo clandestino!
--Eu tinha quarenta e sete segundos para encontrar essa maneira.
--Não fazia ideia de onde estava, sabia apenas que era próximo a alguma ferrovia, estava muito quente ali, o suor pingava da minha camisa, que colada ao corpo começava a incomodar tanto quanto aquela situação. E que situação... maldito Vicente! Entrei naquela graças a ele. Pelas frestas daquele amontoado de tábuas que Eles chamavam de galpão, eu podia ver a poeira em suspensão numa coloração avermelhada nadando na luz que entrava; o sangue de Vicente escorria para perto de mim e graças à tensão capilar ele subia vagarosamente pela minha calça de linho que um dia foi branca – aquele sangue ainda não era o meu. Ali mesmo nos cascalhos em que estava ajoelhado implorando a algum deus pela minha vida, Vicente, o maldito, jazia numa posição bizarra: de costas, a perna esquerda quebrada num ângulo estranho – pareciam duas pernas direitas. Os ossos das mãos foram esmagados com uma marreta. O rosto virado em minha direção – tinha os olhos miúdos vidrados em mim. E por fim, o estrago do tiro na boca que quase separou a cabeça do resto do corpo. Era grotesco, o homem de voz trovejante, mas de andar desengonçado, não era mais nada além de um monte de massa de nada; ainda assim parecia desengonçado.
--Eu já não tinha mais esperanças de sair dali andando com minhas próprias pernas... pensei no que minha vida era e do que nunca teria sido...
--"Abra la boca!", disse o maldito argentino – o filho da puta tinha de sê-lo.
--Abri-a debilmente, ele empurrou a arma por entre meus dentes amarelados de nicotina como se fosse um termômetro, meu corpo de alguma forma entendendo a metáfora, tremia para validar a cena. Seus dois amigos riam do fundo do galpão, um deles aumentou o volume de um rádio que sibilava alguma coisa ininteligível para mim... Deus, eu já podia ver os anjos chorando por mim e ainda teria de morrer ouvindo pagode dor-de-cotovelo!
--"Monteiro! Acabe logo com isto, estamos com fome", disse o cara do rádio com impaciência.
--Era o fim.
--Pude sentir o vibrar das molas e engrenagens do .38 quando o cão da arma foi puxado. Uma lágrima rolou pelo meu rosto, eu não consegui fechar os olhos.
--Nem Monteiro. Não piscou ao apertar o gatilho...
--(Uma vez, num filme, duas personagens discutiam o que era um milagre. Um deles respondeu: "É quando Deus faz o impossível, possível.")
--Não houve disparo, simplesmente a arma "negou fogo", Monteiro ia examinar a mesma quando...
--Caiu levando as duas mãos ao rosto já cheio de sangue – por que nos momentos mais estranhos da nossa vida temos as ideias mais tolas e estúpidas? A primeira coisa que passou pela minha cabeça ao vê-lo no chão foi: “Defeito de fábrica, o fabricante promoveu um ‘recall’, Monteiro não se deu ao trabalho de levar a arma”.
--O argentino desgraçado contorcia-se na terra vermelha e no cascalho de dor, eu ainda ajoelhado começava a entender que o tiro saíra pela culatra, quando vi o revólver. A três palmos do meu alcance a arma acenava para mim com a promessa de poder e vitória, os amigos do seu antigo dono eram mais lentos que lagartos pré-históricos e levaram uma vida para tomar alguma atitude. Duas ideias loucas atravessaram meu córtex cerebral: a primeira, faria como nos filmes e derrubaria os brutamontes com poderosos golpes de artes marciais que nem mesmo conhecia. Ou a segunda, convencer-ia-os a desistir – falaríamos de Buda, Jesus, Krishna, Gandhi, King, Bono, esses caras –, já que muitas pessoas haviam se machucado.
--O dilema nem corroeu meus sentimentos.
--Peguei a arma, levantei, virei-a em direção dos dois babacas, agora, lívidos e mansos. Não sabia se ainda podia funcionar, atirei rezando que não acontecesse o mesmo que aconteceu com o argentino – tinha de sê-lo!
--O tiro ecoou no galpão, acertei em cheio.
--O pequeno rádio de pilha se desfez em pedaços, em várias direções, em várias evoluções. Os dois não entenderam nada, nem mesmo eu entendia, então eu corri. Ouvia os zunidos, sentia a pólvora no ar e corria tudo o que não corri na adolescência, atravessei a porta do galpão ainda correndo, a claridade me cegou e por um momento não sabia o que era direita ou esquerda, corri em direção à ferrovia, podia ouvir os caras me perseguindo e eu corria – se não tivesse meu baço num acidente de infância, aquela dorzinha que dá nas costelas teria me feito parar e... bem, nada de história. Eu corria feito o diabo, eu ainda ouvia os tiros, corria como quenianos, não ousava olhar para trás, tinha medo de me tornar uma estátua de sal ou de nunca mais ver minha Eurídice... e então eu corri...
--até não mais ouvir os tiros.
.
Versão revista do livro De vermes e outros animais rastejantes (Ed. Multifoco, 2008).
.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

'Avatar' e a verossimilhança

Por Rogers Silva

No filme Avatar, escrito e dirigido por James Cameron, os seres humanos são os vilões. Nada mais verossímil. Como assim? Vilões, os seres humanos? Verossímil? Que troço é esse, verossimilhança?

Verossímil é aquele filme, ou livro, que de alguma forma se assemelha à verdade/realidade. Verossímil é, então, sinônimo de realista? Nada mais falso. Uma obra ficcional, embora louca ao extremo (fantástica, futurista, estranha), pode parecer verdadeira, porque possui a capacidade de convencer – isso é verossimilhança. Por outro lado, uma autobiografia ou biografia pode ser inverossímil (leia a biografia do Roberto Marinho escrita pelo Pedro Bial e tire suas próprias conclusões).

Na literatura, verossimilhança é a coerência interna da obra, a relação entre a forma e o conteúdo e a maneira que um contribui, ou não, com o outro. As incoerências internas destroem a verossimilhança de um texto literário (vide O código da Vinci, de Dan Brown). Exageros + explosões + fugas + mistério forçado + polêmicas ultrapassadas + teorias absurdas podem entreter, mas nem sempre convencem. Numa obra literária verossímil, o leitor parece estar vivendo a história, ora como personagem, tamanha é a capacidade da obra, e do autor, de convencê-lo. Numa obra inverossímil, o leitor a lê com certa desconfiança, como um mero espectador distante.

Uai, mas Avatar é verossímil? Claro! Embora maniqueísta – como 90% dos filmes vindos de Hollywood/Los Angeles/Califórnia/EUA –, uma vez que exagera os traços dos heróis e dos vilões, Avatar é, sim, verossímil, porque é uma alegoria da vida atual e do sistema que a cerceia – o capitalismo. Capitalismo selvagem? ‘Selvagem’ é um termo que não cabe aqui, porque se trata de um filme em que os selvagens (os habitantes das selvas, os bárbaros, os primitivos, os nativos, enfim, os habitantes de um planeta chamado Pandora) são os heróis, que preservam e cuidam da natureza porque dela precisam para sobreviver, diferentemente dos seres humanos (vilões), que destroem a natureza porque precisam dela para enriquecer. Capitalismo destruidor.

Qualquer discurso que afirme que o ser humano destrói o que destrói – direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente – para se preservar é balela ou explicitamente ideológico. O ser humano criou um sistema ultra-multi-mega complexo para fins tão simples – sobreviver e ser feliz. Mesmo assim, não consegue nem um nem outro em sua plenitude. Os que conseguem, principalmente sobre-viver bem, normalmente são os mais “preparados” – os que comungam com esse mesmo sistema e dele aproveitam; os que sempre possuíram ou possuem melhor condições, ou mais ricos; os que jogam o jogo; os que possuem poder e armas.

No filme Avatar, os homens – cegos ou ambiciosos ou paus-mandados –, com suas máquinas moderníssimas como grandes muletas e escudos, com suas convicções perigosas, com sua ciência, com sua capacidade de fogo e destruição, com sua capacidade de se adaptar às formas humanóides dos Na’vi a fim de concretizar seus planos, com suas orelhas, partem para a guerra. Inicia-se, então, um conflito de proporções épicas em Pandora visando os recursos do planeta e a própria sobrevivência, sobretudo a dos nativos, que ali estavam e apenas queriam ali continuar.

Aí, no entanto, surge um ponto de inverossimilhança no filme Avatar – o final. Não direi o motivo porque teria que contar o final do filme. Os que não assistiram e ainda pretendem assistir me matariam. Assistam e me respondam – na vida real, ESTA, aconteceria daquela forma? No mundo concreto, ESTE, os vencedores seriam e são (metaforicamente) aqueles? Seriam? São?

Avatar é um amontoado de clichês, e ora moralista, mas é bom, porque além de técnica e visualmente perfeito, nos faz sentir raiva do ser humano por causa da sua crueldade-fruto-da-sua-ambição (clichê dos clichês, porque a verdade das verdades). Olhe à sua volta, ligue a televisão. Olhe-se no espelho. Mentira?
.
*Livros podem ser enviados para o colunista Rogers Silva a fim de serem resenhados. Tratar pelo email rogers.silva@yahoo.com.br Após lido, o livro será sorteado entre os leitores/seguidores d’O BULE
.

Resultado do sorteio do romance UM, de Geraldo Lima

O vencedor do sorteio do romance UM, de Geraldo Lima, é: Fabio Rocha. Parabéns!

O sorteado terá 7 dias para entrar em contato com os editores d’O BULE, pelo email coisaprobule@yahoo.com.br, a fim de enviar seu endereço. As informações serão repassadas para o autor do livro que, por sua vez, enviará o livro autografado. Após esse prazo, caso o sorteado não tenha entrado em contato com O BULE, outro sorteio será feito.

Obs: Lembramos, também, que o contemplado de um sorteio não poderá participar dos próximos 4 sorteios.
.

Reverberações do mundo literário sobre a Morte de J. D. Salinger

Morreu ontem J.D. Salinger, aos 91 anos de causas naturais. O autor ficou mundialmente conhecido pela sua obra o Apanhador no campode de centeio (1951), já um clássico, e ainda pela reclusão - Salinger era avesso a fotos, entrevistas e a qualquer outro tipo de exposição. E hoje, diversas opiniões de escritores como Ana Paula Maia, Fabrício Corsaletti, José Castello, Moacyr Scliar, Silviano Santiago estampam os principais cadernos de cultura, como no Prosa Online


(Fonte da assinatura: Wikipedia)
.

Junk Monkey Munk

Por Homero Gomes

será que é preciso ser louco ou ser gênio ou ser rico para que te reconheçam BeBop na veia deles compulsivo até a alma louco ou gênio não sei a diferença bem se bem que nem todo louco consegue a carteirinha de gênio de sua época veja isto é horrível nossa sociedade é insana porém está bem longe de sua mais bem acabada genialidade Thelonious Monk o louco dando voltinhas em torno de si mesmo Nellis segurando as pontas sei lá que pontas esquizofrenia de cannabis cinta na bunda dela dos dois por favor me tirem dessa camisa eu pareço um macaco com essas mangas brancas tão compridas vou pegar estas cenouras e enfiar goela abaixo é impossível improvisos verdadeiros na escrita automatismo jazzístico será será dá-se o tema coerentemente a criação vai andando para sua apoteótica conclusão por favor me tirem dessa camisa

Na próxima semana, a narrativa Uma Crônica no Escuro – da 'Parte I: Em Curitiba', de Jamé Vu.
.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima
-
Anjo de botas I
-
Sem calcinha e sutiã, carne branca devorada pelos meus olhos. Atendeu ao meu pedido: cheia de dengo, calçou de novo as botas. Que se cumpra então a minha fantasia!
Remanso de pelos à minha espera, quente, úmido.
-
Fatalidade I
-
Não esperavam que ela gritasse. As mãos de Jorginho estavam trêmulas e, com aquele grito, entraram em pânico.
Torvelinho de braços, pernas, dentes e urros.
-
Mistério
-
Primeiro ouvimos um grito. Depois, dois estampidos. Só um cão latiu varado de susto. E nada mais.
O silêncio vestiu a noite.
-

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pia Benta

Por Fernando José Karl
-
Vim a este Hotel Sunset Boulevard, rente ao mar grosso de sal e azul, porque me contaram que aqui estavam me esperando Schopenhauer e Francisca B. Não os encontrei. Não faz mal. Ficarei espiando o mar tranqüilo assim e o visível corpo n’água.
-
Mar em que nos abandonamos e que cresce em nós com as tormentas, continuará a ser água salgada em desalinho constante e os limites deste mar, fixados em alguma idéia, se confundem com a altura do céu que é claro sem nunca ter pensado: este céu é suficientemente despovoado de anjos e beatas virgens, de tal modo que resta sempre novo céu que podemos exaurir e dele arrancarmos as finas cordas da chuva, as chuvas de que é capaz o espírito.
-
E acontece que, para o espírito, as nossas presentes chuvas, sem consideração moral, são mais molhadas. Aquele que construiu em si a obrigação de molhar os dedos na pia de água benta, sabe que nunca deixará de faltar matéria e realidade à água benta e só terá necessidade de recorrer a ela se, vazio, e para iludir o escuro em si mesmo, tocar a suposta santidade da água que, ali na pia, é água apenas, e isso é tudo para essa água que, sem pia nem beatitude, continua ali e logo evapora. Mas chega de filosofia.
-
Não vou esperar mais. Daqui posso ver a Tabacaria. Talvez o Esteves saiba onde Schopenhauer — o peixe espinho — e Francisca B. estejam.
-
Fernando José Karl - Nasceu em Joinville/SC no ano de 1961. É autor de Casa de água (Poesia), O Cacto (Romance) e Senhora do gelo (Novela), entre outros livros.
-

Concursos e Prêmios

Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura
O Governo de Minas Gerais, por intermédio de sua Secretaria de Estado de Cultura, torna público que receberá propostas dos interessados em participar do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura – 2010, dentro das condições estabelecidas neste Edital, com premiação de obras literárias nas categorias de Poesia, Ficção (Conto) e Jovem Escritor Mineiro. Os interessados devem protocolar sua obra no Suplemento Literário de Minas Gerais, localizado na Superintendência de Museus de Minas Gerais, na Avenida João Pinheiro, número 342, bairro Centro, Belo Horizonte/MG – CEP 30130-180, das 10h00 às 17h00, até o dia 30 de janeiro de 2010, ou enviá-la pelo correio, valendo a data da postagem, sendo ianterior ou igual a do último dia de inscrição.

Será atribuído 1 (um) prêmio ao ganhador de cada categoria, salvo outra decisão da Comissão de Análise, sendo:
A) Homenagem pelo conjunto da obra – R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais) brutos.B) Poesia – R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais) brutos.C) Ficção – R$ 25.000,00 (vinte e cinco mil reais) brutos.D) Jovem Escritor Mineiro – R$ 7.000,00 (sete mil reais) brutos, durante 6 (seis) meses, para pesquisa e elaboração de um livro.
Desses valores serão descontados os impostos previstos por lei.

Maiores informações no Site Oficial.

Obs.: caso não consiga visualizar os arquivos, entre em contato pelo telefone (31) 3269-1009 ou pelo e-mail asscom@cultura.mg.gov.br
.
***
.
6ª Edição Concurso Poético Infanto-Juvenil Língua Portuguesa
Data Limite para Inscrição: 29/1/2010. Local de Realização: Portugal – Almada Cancioneiro 6ª Edição Concurso Poético Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa Campus Universitário de Almada.

A 6.ª edição do Concurso Poético é apresentada no próximo dia 31 de Maio de 2008 no Campus Universitário de Almada, com a presença do presidente do Instituto Piaget, Dr. António Oliveira Cruz, e a realização de diversas conferências sobre poesia.

Os trabalhos, inéditos, podem ser entregues até dia 29 de Janeiro de 2010, e os resultados serão anunciados até dia 20 de Abril de 2010.REGULAMENTO GERAL: CLÁUSULA 1ª: O Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa procurará abranger os países de Língua Oficial Portuguesa e seus migrantes.

***

10º Concurso de Contos
Tema: "Abdução". Serão aceitos contos nos estilos: Terror, Horror, Suspense, Insólito e Surreal e contos em outros estilos combinados com um destes. Como se trata de um tema aberto, é importante enfatizar que o mesmo precisa ser um elemento essencial da história. Não pode ser apenas um conto que cite "Abdução", o mote do concurso precisa ser algo importante, mesmo não sendo exatamente o ponto central.

Será aceito apenas um trabalho por Autor. Os trabalhos devem ser enviados para o email: concursodecontos@hotmail.com O email deverá ter o título: 10º concurso de contos e deverá conter o conto, o título do conto, o nome verdadeiro do Autor e um pseudônimo à escolha do autor. Um moderador da comunidade irá postando cada conto em um tópico separado, identificando apenas pelo título e pseudônimo do autor. O link para o tópico será colocado nesse tópico para facilitar a leitura.

Os Autores devem se inscrever e postar seus textos entre os dias 04 e 31 de Janeiro. A votação irá do dia 01 a 03 de Fevereiro, no dia 04 sai o resultado.

***

XXV Concurso de Poesia “Brasil dos Reis”
O Concurso de Poesia “Brasil dos Reis” tem por finalidade estimular a produção poética e incentivar a Cultura. Inscrição1) Será aberta em 23/05/2009 e encerrada 31/01/2010, valendo a data da postagem. 2) Poderá participar do Concurso qualquer pessoa, residente em território nacional, ou em país em que a Língua Portuguesa seja oficial.

Maiores informações no Site Oficial
.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Chapéu de mágico

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Na verdade nunca fui mágico. Sabia meia dúzia de truques e uma vez um macaco de circo me ensinou a hipnotizar pedras e tigres.

Sim, é verdade que eu trabalhei no circo, já fui mulher barbada sem nunca ter sido mulher, já me vesti de urso, já derrubei touros capados, mas nunca fui mágico. Acontece que eu estava foragido. Tinha coronel, polícia e Lampião no meu rasto e fui me esconder naquela pobre cidadezinha nos fundos de pra-lá-dos-montes. Eu usava um chapéu de mágico, roubado, e o povinho me confundiu de sujeito ordinário. Me receberam bem pra danar. Fizeram banquete e tudo. Mataram cabra. E me deram a última donzela virgem daquelas bandas. Juracema. Eu aproveitei. Lambi os beiços. E como gostei da menina, não contei pro povo que de donzela ela já passava longe.

No dia seguinte, veio a conta. Como fui tolo, pensei. Metido em outra enrascada. Os pra-lá-dos-montinenses estavam cansados de tanta seca naquelas terras. E cansados também estavam da chuvarada que quando vinha não vinha só, mas vinha enchente. Era tarde pra dizer que eu não era mágico e me lembrei do macaco do circo. Eu já tinha hipnotizado pedra, já tinha hipnotizado tigre, não seria difícil hipnotizar aquela gente. Acabou seca, acabou enchente. Quer dizer, o povo todo não viu mais seca nem enchente. Alguns morreram comendo terra e outros morreram afogados na última estação. E quando o efeito do transe passou eu me chispei daquele lugar e trouxe comigo a donzela que não era donzela.

Hoje, velho, me recordo daqueles dias, e da fatalidade de ter conhecido Juracema, que fugiu de mim na cidade seguinte com o mágico de um circo que por lá acampava.

Do livro Rapsódias – Primeiras histórias breves (Ed. Multifoco, 2009)
-

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Escrevendo, talvez

Por Bruna Maria

Não suporto mais. Resta matar os mosquitos. Isto aqui é uma pocilga. Às vezes ouço barulho de ratos. Deve haver goteiras por aí. Quando mato mosquitos fico com sangue nas mãos. Eu devia achar um pedaço de pau. Descê-lo na cabeça da primeira pessoa que entrasse aqui. Eu devia escrever. Não aguento mais ficar sentado esperando.

Encontrei-a na hora combinada. Não avisei a ninguém aonde eu iria. Meu dia de folga. Fui apenas com a roupa do corpo e uma nota de cinquenta reais. Ela disse que para mim seria barato. Eu tinha desconto. Eu contava histórias e tinha desconto. Para mim seria barato.

Blusa marrom com listras amarelas. Calça jeans. À paisana. Fiquei onde combinamos: encostado numa marquise, à espera. Algumas pessoas passavam por mim. Eu as observava. É constrangedor ter de esperar por alguém. Ela disse que estaria com um vestido estampado. Ela garantiu que não era de se jogar fora. Eu acreditei nela.

Meia hora depois alguém descia de um táxi. Estava de vestido estampado... Não era um táxi. Assobiou, fez um sinal. Me convidou para entrar no carro. Coloquei uma mão no bolso da calça e fui. Nervoso. Ela não era de se jogar fora.

- Eu li todos os seus livros. Eu sou aquelas personagens. Como podem ser tão cruéis os seus destinos? Você é um tremendo filho da puta. Como deus, seria um desastre. Você prostituiu e matou suas heroínas. Suas narrativas urbanas são meros retratos de uma cidade que já existe. Isto é charlatanismo. Você não escreve. Você faz cópias e as assina. Eu li todos os seus livros.

A porta do carro estava travada. Ela sabia aonde ir. Mandava virar à esquerda, depois à direita. Dizia “contorne a praça”. Mandou parar na frente de um cortiço. “É o motel mais barato”, disse.

Eu podia ter fugido. Era uma mulher louca. Ninguém lia todos os livros de alguém. A birra com as heroínas devia ser recalque. Eu podia sair correndo dali. Eu entrava aqui. Uma pocilga. Eu não fiz questão de correr. Segui seus passos, subi escadas. Ela parou diante de uma porta e girou a maçaneta. Entrou e me mandou entrar. Logo deitou sobre a cama, tirando o vestido.

Estava escuro. Ela envolvia meu pescoço com os braços e me mandava ficar sentado. Às vezes dizia que eu tinha uma cara patética. Outras, ficava calada. Falava que eu mentia. Me chamava de um nome que nunca ouvi... Estava escuro e eu não podia ver seu rosto. Eu sentia como ela pesava sobre as minhas pernas.

Depois se vestiu novamente. Pediu os cinquenta reais. Eu quis saber como eu voltaria para casa sem dinheiro. Disse que era problema meu. Disse que cinquenta era muito pouco. Lembrei-lhe que ela me daria desconto. Respondeu que desconto se pedia quando o parceiro era ruim. Chamei-lhe de vadia. Ela me bateu na cara. Correu até a porta e gritou por alguém. Logo subiu um homem forte que me bateu e me fez apagar.

Então acordei aqui. Ela veio se despedir. Ainda no escuro. Me chamou de fraco. Jogou uns papéis sobre mim. Abriu a porta novamente e falou debochadamente com alguém: “Ele quer escrever uma história de verdade.” Depois disso saiu, desapareceu. E eu fiquei aqui, matando os mosquitos durante o tempo que me resta. E escrevendo, talvez.
-
Bruna Maria - Carioca, mas não chega a ser muito fã de dias de sol. Formada em Letras, já cultivou uma média de três blogs pela rede, deletando os dois últimos por ter embirrado com a escrita. Para ela, o ato de escrever pode ser muito cruel e pouco redentor e, por isso, vive tentando desistir de se meter com as palavras. Mas não consegue. Também pode ser encontrada em www.projetoautoral.wordpress.com ou www.twitter.com/brumah
-

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

UM, romance de Geraldo Lima


Em UM, o protagonista Paulo, ex-seminarista e professor de faculdade, espera, em seu apartamento em Brasília, por um acontecimento fantástico — uma epifania—, que poderia mudar o curso da sua vida. Enquanto espera, relembra seu relacionamento fracassado com a extrovertida Ana Paula, uma aluna que ele conheceu na faculdade onde leciona; sua amizade com a mística Ariadne, que tenta ajudá-lo ou curar sua alma enferma, como ele sempre diz; sua relação tensa com a mãe convertida ao protestantismo, a qual sempre sonhou vê-lo, primeiro, sagrado padre, depois, pastor; as longas discussões com padre Arthur, responsável pela sua orientação religiosa; e a imagem serena do pai, no qual sempre encontrou um porto seguro.

Toda a narrativa transcorre no espaço de seis horas: a espera inicia-se, mais ou menos, às 19 horas e finda à meia-noite. É nesse espaço de tempo que o protagonista relembra momentos de sua vida reclusa, consumida pela solidão e pelo rancor. Como teve, ou supõe ter tido, uma visão da face de Deus, espera de novo por essa manifestação divina. Mas, como já não pode crer, tudo isso lhe parece impossível. Nesse momento, ele sente como se tudo tivesse se condensado e fosse explodir; essa explosão é interior, psicológica. Sua mente, inquieta, viaja de um ponto a outro em busca de respostas e sossego para sua alma aflita. Mas a existência está fragmentada, e seu ser, fraco, incapaz de levar adiante qualquer compromisso, parece prestes a sucumbir aos apelos da morte.

A narrativa, marcada pelo emprego de uma linguagem predominantemente poética, segue o fluxo de consciência do narrador-personagem; a memória e a observação de situações cotidianas é que determinam o eixo narrativo. Presente e passado alternam-se constantemente.

FICHA TÉCNICA:
Autor: Geraldo Lima
Editora: LGE Editora
Gênero: romance
Nº de páginas: 115
ISBN: 978-85-7238-407-0
Preço: R$ 25,00
.
Onde comprar: direto com a editora pelo email lgeeditora@lgeeditora.com.br
.
Sobre o autor
Geraldo Lima é autor de outros livros, entre eles Baque (contos, LGE Editora/FAC). É autor, também, das peças de teatro Error e Trinta gatos e um cão envenenado. Tem textos publicados em jornais e revistas impressas e eletrônicas. Mantém o blog: baque-blogdogeraldolima.blogspot.com
.
Caro leitor, será sorteado 1 (um) exemplar do romance UM entre os seguidores deste blog.
Caso ainda não seja um seguidor, aproveite para se tornar e participar do sorteio.

Daqui a uma semana (29/01) divulgaremos o contemplado somente aqui n'O BULE.
.

Jamé Vu - Abertura

Por Homero Gomes

o que se busca incansavelmente essa luta diária sem oponente esse bate-estaca cada vez indo mais fundo o som de órgãos anunciando a entrada da noiva o que se busca filósofos religiões e os bêbados cada um dá sua explicação sua resposta felicidade salvação o corpo quente de alguém a casa o peito o norte onde está o norte buscamos alegrias a salvação das nossas almas a alma gêmea o que se busca como podemos buscar algo que não sabemos felicidade através de deus diabo fama dinheiro sexo ocasional mas isso passa dizem alguns a salvação de nossas almas mas como é que é possível comprometer uma vida para garantir a eternidade para uma coisa que não temos certeza absoluta se existe ou não talvez nem esse amor verdadeiro exista as almas que se combinam se tornando uma só o que a total apatia busca a destruição do organismo e a angústia o que buscam será que buscamos realmente alguma coisa só passamos só não deixamos pegadas deixamos sombras talvez sonhos não há objetivos talvez quase nada exista de verdade talvez eu seja uma marionete ou talvez você leitor um sonho que eu sonhei na noite passada

Na próxima semana, a narrativa Junk Monkey Munk - a primeira da 'Parte I: Em Curitiba' de Jamé Vu.
.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Resultado do sorteio da revista 'Portal Fundação'

Os vencedores do sorteio do Portal Fundação são (tã-tã-tã-tã): Samuel Giacomelli e João P. Parabéns, rapazes!

O sorteado terá 7 dias para entrar em contato com os editores d’O BULE, pelo email coisaprobule@yahoo.com.br, a fim de enviar seu endereço. Após esse prazo, caso o sorteado não tenha entrado em contato, outro sorteio será feito.
.
*Lembramos, também, que o contemplado de um sorteio não poderá participar dos 4 próximos sorteios.
.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Revista O BULE Número Zero

-

-

sábado, 16 de janeiro de 2010

Laura

Por Claudio Parreira
-
Não importa, eu vou. Escalando as costas da tarde, que se precipita feito uma flecha em direção ao depois.
Porque assim tem sido desde sempre: logo cedo a questão me abraçou: você escolhe entre voltar, permanecer ou seguir. Não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Seguir, portanto. É o que tenho feito.
Cada segundo traz nos bolsos o mistério. A aspereza do oxigênio. O suor em chamas. O nome dela é Laura.
Foi num sonho. Laura era um susto. Não pude ver o seu rosto, o seu corpo. Névoa de sono. Mas sim, os sentidos todos apontando pra ela, a mulher.
Quando acordei toda a cama era um oceano. Peixes transparentes no ar. Na boca um gosto amargo de estrelas. Laura era fiapo de sonho, impalpável, mas já existia em mim.
Daí todos os meus dissabores.
- Laura, foi quando eu suava labaredas. No sonho, ela estava no sonho. Viu ela por aí?
Riam de mim. Esse o mal das pessoas: ninguém acredita nos sonhos alheios.
Minha única certeza era uma só. Nunca no meu passado, no meu presente de maneira confusa. Só depois, talvez. Laura só no futuro.
Por isso escalo os calendários com a determinação de um condenado. Não me cabe permanecer aqui. O desespero é hoje, nunca ontem. O sofrimento é agora.
Longa a estrada. Os gatos no caminho. Uma conversa esclarecedora.
- Não sei como ela é – dizem os gatos –, mas tenho amigos que moram lá, no depois. Falam de Laura, Lauras. Depois é cheio de Lauras.
Suspeito, portanto, de que estou no caminho certo. Um homem que acredita na palavra dos gatos. Talvez por escrever.
As primeiras letras também foram difíceis. Difícil subir ao caderno, acomodar-se às dobras das sílabas, domar consoantes. Porque no princípio toda palavra é vertigem. Como as mulheres. Desconhecido azul.
O rigor. Porque as palavras fogem à falta de rigor. Precisam de um braço para contê-las. De maneira que o meu aprendizado com as mulheres começou com as palavras.
Mas eis que agora me vejo aqui sem nenhuma delas. Há tempos não escrevo uma mulher. Laura é sabedora da minha condição. Por isso veio no sonho. Vapor-mulher, a direção que faltava aos meus pés.
Quanto mais avanço menos gatos eu vejo. Os poucos que ainda restam temem falar. Depois é um território nebuloso, eu sinto. Só os gatos mais corajosos chegam lá. Só os homens mais corajosos se dispõem a chegar lá. Depois. Laura não está. Laura é lá.
Econômica a minha paisagem. Uma estrada, só, uma tempestade de girassóis do lado direito, do esquerdo os cardumes: peixes azuis amarelos pretos, tantos peixes – e não dão a mínima para os gatos.
- Não como os peixes sonhados pelos homens – diz um gato amarelo. – Não tenho essa capacidade.
Sonhos particulares. Cai por terra a minha teoria de que os sonhos pertenciam a todos. Não pertencem aos gatos, pelo menos.
- Os nossos são de outra natureza – dizem os gatos verdes. – Basta um sonho de gato para o seu mundo sair do eixo.
O meu mundo saiu do eixo desde que sonhei com Laura. Seria o meu, então, um sonho de gato?
- Só um gato sonha sonhos de gato – dizem os gatos azuis. – Eis aí uma questão a ser considerada.
Vejo Laura pela primeira vez, finalmente. Está ao alcance da minha mão. E ela não é mais névoa, nem sonho.
- Mas você não pode me tocar – ela diz, o sorriso tranqüilo no rosto.
Estendo meu braço e o que encontro na extremidade é uma pata de gato. Meu braço é um gato. Eu sou o gato.
- É por isso? – protesto. – Não sou um gato, não era até há pouco. Estou gato, e isso é diferente!
Laura sorri. Todo o meu trabalho foi inútil. A minha caminhada. Malditos gatos! E agora de nada me adiantam as palavras, são vento.
- Tanto faz pra mim se você está gato ou elefante – ela diz, a voz serena. – Você nunca vai me alcançar.
A tempestade de girassóis. Os cardumes. Laura é o caos.
- Agora – diz Laura, os lábios sorrindo sílaba por sílaba. – Você é agora. Percebe?
Nenhum gato mais. Somos apenas eu e ela.
- Eu sou agora.
- E eu, depois – ela diz.
- Por mais longe que eu vá, serei sempre agora.
- Depois é a minha maldição.
O universo tem essas cápsulas que separam as coisas, as pessoas. Não posso alcançar o ontem.
Laura é névoa mais uma vez. Sempre será. Mas não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Sigo, portanto.
-
Claudio Parreira - Escritor, chargista e vigarista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Teve contos incluídos nas antologias Contos de algibeira (Ed. Casa Verde), Fiat voluntas tua (Ed. Multifoco) e Dimensões.br (Ed. Andross). Mora em São Paulo, SP.
Mantém na Internet o BLOG PPC! http://claudioparreira.blogspot.com/ E-mail: blogppc.claudio@gmail.com
-

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Hippies & happies, talvez yuppies

Por Mauro Siqueira

“Se mais nada der certo, eu...” era tudo que eu conseguia ler nas grandes letras brancas da t-shirt tye-dye multicolorida que ela estava vestindo. O balanço, o ritmo em que estávamos também dificultavam a leitura.
“Espera, espera...”, fui falando e esticando a sua blusa, para que eu pudesse ler.
“Que foi? Tô te machucando? “Não. Se mais nada der certo, eu viro hippie.” “Ah, caralho! Você me fez parar de fudê por causa da minha camiseta?! Puta que me pariu!” Marcela está irritada.
Sem cerimônia “saiu-se” de mim de maneira que me subiu dos ovos aos rins, deixasse bem clara a besteira que fizera; não adiantou tentar segurá-la pelos quadris, seguiu muito puta, apenas com a camiseta-conflito, que não cobria nem mesmo a metade daquela bunda enorme, com a convicção de uma perfídia, corredor à fora; ela já estava entrando no banheiro, quando catou um dos meu cinzeiros e quase me acertou, ao mesmo tempo que enchia a boca de um você-é-um-filho-da-puta-! tão grave e enfurecido que chegou até a me excitar... Eu só pude me proteger e esperar que errasse – o limite entre a sorte e os pontos cirúrgicos ficou em três centímetros. Bateu a porta com igual violência. O que eu podia fazer se sou curioso? Depois, as mulheres dizem que não reparamos nas roupas delas... Fiquei um tempo, com os braços cruzados sob a nuca aguardando, olhando a preguiça do meu ventilador de teto. Enquanto que entre as minhas pernas o desejo amolecia – por quanto tempo eu ainda teria de esperar? Aquilo ficava ridículo. Gritei o nome de Marcela. “Vai tomar no cu!, Márcio!”. Sempre objetiva, a minha marcela – deve ser influência da pós em contabilidade.
Levantei e acendi um cigarro, segui para a varanda completamente nu... Moro, moramos, sei lá, Marcela passa bastante tempo aqui... Moro num desses sobrados velhos do Centro da cidade e que mereciam um restauro, é até perigoso ficar muito tempo na minha varanda, que não cabe mais do que duas pessoas. Mesmo assim me debrucei sobre a balaustrada de ferro carcomida de ferrugem e fiquei os minutos que cabem no meu cigarro e... curtindo o gosto sofrível dos mentolados de Marcela. Olhando o nada da madrugada, confundindo suas estrelas opacas com as luzes dos pontos mais altos dos morros; na minha frente e lá embaixo, alguns bêbados e vadios, o som dos sacos de lixo sendo rasgados: vasilhames, folhas de alumínio, cacos de vidro, vegetais e alguma proteína animal, pets e outros polipropilenos enchendo o chão antes dos garis passarem, pequenos traficantes&seus clientes; as putas&seus clientes ganhando o máximo antes d’ozômi passarem – os policiais&seus clientes... Eu amo a minha cidade! O cigarro acabava – nem mesmo quatro minutos –, e a Marcela começava a me irritar com aquela peça; meu interesse esvaído e agora tímido, a se desviar para algum possível filme na tevê àquela hora, ou... sei lá, palavras cruzadas ou algum livro da garota que escreve como homem.
Bati, de leve, três vezes, na porta. Nada. encostei o meu rosto e falei seu nome baixinho: “Marcelinha...”... Nada. “Marcela...”, mais uma vez (arranhei uma manchinha de tinta da porta: ela descascou).
Estava irredutível. Até podia vê-la pela porta, sentada sobre a tampa do vaso; curvada para frente, mãos entre as pernas, pés meio que virados para dentro, o esmalte colorido, um rosa antigo talvez, descascando; fumando um dos meus cigarros, os dela são sofríveis. Ainda enfurecida, soltando, literalmente, fumaça pelas ventas e sujando o piso azulejado e quadriculado de cinzas. Era quase uma foto daquele francês de nome de relógio, mas eu não sei se levou algum dos meus cigarros com ela. Era uma cena bonita p’ra cacete, pra ser filmada por aquele canadense estranho e Marcela era linda; uma cena sincera e rica, mas a minha velha Nikon-f ainda não tem lentes de raio-x para poder registrar tudo aquilo pela porta.
“Porra, Marcela, não foi por querer!, foi curiosidade. Sai logo daí, anda...”
“...”
“Vem, volta... ...eu deixo você me bater...”
“...!”
O som do trinco, a porta agora destrancada.
“...?”
“Vem...”
O desejo voltando como nunca tivesse ido. A camisa ainda não cobrindo nada.
“Como assim hippie?” Disse ela recomeçando tudo de novo.
-

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Folhetim 'Jamé Vu' – Apresentações

Por Homero Gomes

Antes de começar este folhetim, apresento uma seleção de comentários feitos por escritores sobre o meu livro Jamé Vu: narrativas-crônicas – livro iniciado em 2001 e concluído em 2009, enviado a 13 editoras, tendo algumas de suas narrativas publicadas na revista Cult, Germina Literatura, entre outros periódicos, e que aguarda sua publicação para 2010.
-
Os comentários da escritora e conterrânea Luci Collin:

"Acabo de ler seu Jamais Vu*. Muito bom o livro! Cheio de momentos altos – tem umas percepções apuradíssimas – parabéns, seu olhar é bem revelador."
(Luci Collin)

Agora, do generoso Nelson de Oliveira:

“Tuas crônicas realmente vão fundo no gênero. Não são, de jeito nenhum, superficiais ou engraçadinhas como noventa e nove por cento das bobagens que saem nos jornais de grande circulação. O tom muitas vezes rabugento e antipático do teu narrador cutuca, incomoda, provoca… Os textos são matadores: azedos e melancólicos. [...] Não resta a menor dúvida de que você tem talento. Não mesmo. Mas isso equivale a uma sentença de morte. Porque (isso eu estou aprendendo a duras penas) o mercado editorial não está interessado em autores talentosos.”
(Nelson de Oliveira)

E, finalmente, do grande mestre Fernando Monteiro – que batizou o título definitivo do livro:

“Gostei do livro, e acho que, primeiro, você não deveria chamá-lo de livro de crônicas (que, ao que eu me lembro, foi como você o apresentou). Não acho que seja um livro de "crônicas" (pelo menos no sentido que essa palavra tomou, literariamente, aqui). Chamá-lo assim pode induzir o leitor a imaginar aquele tipo de livro frouxo que é quase todo livro (autêntico) de crônicas – um gênero que assumiu certas características cá em Pindorama, e das quais não vi nenhum sinal (ainda bem) nas suas curtas narrativas – ou mini-relatos – incisivos, enxutos e muito bem articulados desde o ponto de vista do narrador que observa com instrumento afiado (e, às vezes, uma certa ferocidade), se confessa e, enfim, anota de maneira direta e limpa, do ponto de vista da forma. Mais um aspecto diferente, neles, daquilo que se encontra em "crônicas", em mais de noventa por cento delas...

Gostei da ausência de pontuação no seu texto sem prolixidade. Não se pode (ou não se deve), na minha opinião, abolir a pontuação, e não controlar, de algum modo "interno", o correr das frases (de modo a não cansar – desnecessariamente – o leitor). Você sabe usar a "não-pontuação", não perde o foco narrativo – ou, quando o perde, é de modo proposital, para acrescentar um novo foco ou corrigir o primeiro.

Outra coisa: o título. Muita gente vai lê-lo em português, soando como "ais" e não "jamé". Se você faz questão dele, talvez devesse grafá-lo em francês errado, ou aportuguesado (com uma ponta de ironia): Jamé Vu."
(Fernando Monteiro)

* Até 2008, o título do livro ainda era grafado em francês: Jamais Vu.

Na próxima semana, o texto de abertura do Jamé Vu. Enquanto isso, sigam o livro no
tuíter.
-

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Revista 'Portal Fundação' – Release e sorteio

A revista Portal Fundação – quarto número do Projeto Portal, coordenado por Nelson de Oliveira – traz contos inquietantes que vão do universo da ficção científica ao do fantástico, passando pelo da fantasia. O projeto não se destina à comercialização.
-
São vinte e seis narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, pós-humano, utopias e distopias, de dezesseis autores contemporâneos.
-
O Projeto Portal prevê seis números, com periodicidade semestral. Cada número homenageará, no título, uma obra célebre da ficção científica: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.
-
Os contistas do Portal Fundação são: Ataíde Tartari, Brontops Baruq, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marco Antônio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Martha Argel, Mustafá Ali Kanso, Ricardo Delfin, Richard Diegues, Roberto de Souza Causo, Roberto Melfra e Rodrigo Novaes de Almeida.
-
Revista Portal Fundação
Revisão: Fernando Silva / Diagramação: Raquel Ribeiro / Capa: Teo Adorno
Formato: 16 x 23 cm / Nº de págs.: 156 / Tiragem: 450 exemplares
Página:
http://projeto-portal.blogspot.com
-
Serão sorteados 2 (dois) exemplares entre os seguidores deste blog.
Caso ainda não seja um seguidor, pode se tornar e participar do sorteio.
Daqui a uma semana (20/01) divulgaremos os contemplados somente aqui n'O BULE.

-
-

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Seis microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

O inesperado

Fazia tempo que não nos víamos. Ela tentou ainda correr o ferrolho. Inútil. Com a ponta do sapato impedi que fechasse a porta. Recuou aterrada, desintegrada pelo medo. Entrei. Desliguei a luz e avancei dentro do breu.

Por trás daquele sorriso

De dentro do sorriso saltaram os ferrinhos comprimindo os dentes. Tarde demais. Ferro contra ferro, língua contra língua, dente contra dente. Saliva, murmúrios. Depois, o abismo, a voz de Deus cada vez mais distante.

Sanctus

Deus não aprovaria isso, essa carne devassa, esse sexo exposto, faminto sempre. Só a morte lhe trará a verdadeira satisfação. Eu curo os doentes, amanso os loucos, dou descanso aos desenganados. Deus anda comigo pelos caminhos mais turvos. E agora estamos aqui, junto ao seu leito enfermo, o coração repleto de amor e piedade.

Missão

Quando adentrei o recinto, havia ainda uma nesguinha de Deus em mim. Confesso: quase senti piedade, remorso pelo que ia fazer. Quase, quase. Mas de repente as vistas turvaram, adveio uma noite medonha. O restinho de luz finou de vez. Agora, só o tumulto de gritos, clamor e desespero dentro do breu.

Oh!

Tentou ainda dizer algo como Deus está... Cortei com um beijo seco, quase violento. Deixa Deus fora disso, Ele é só remorso, temor... Quis retrucar, mas tapei-lhe a boca de novo: um beijo ávido, sufocante. Gemeu, como se algo morresse dentro dela. Desliguei então a luz para que ela não visse, não pensasse, não buscasse a face de Deus em meio aos estertores.

Macega

A gente avançou no meio do escuro, rumo ao lugar de onde vieram os gritos. Meu pai indo adiante, só coragem, medo nem de Deus nem do diabo. Eu indo bem no meio, dominado pelo terror. Por que estávamos indo até lá? Para a memória carregar pra sempre o charco de sangue, a ruína do corpo?
Meu pai avançava, sem fome de perguntas, senhor do nada.
-

domingo, 10 de janeiro de 2010

I Simpósio Internacional de Estudos Estéticos

Pessoas queridas,

no dia 12 de janeiro de 2010, terá início o I Simpósio Internacional de Estudos Estéticos: "Transbordamentos da Estética Contemporânea". O evento, que consolida o Convênio de Cooperação Internacional entre o Instituto de Letras da UERJ e a UFR de Sociologia, Literatura e História da Universidade de Paris 8, acontecerá até o dia 14 do mesmo mês.

François Noudelmann, filósofo francês da contemporaneidade, realizará a conferência de abertura, no dia 12 de janeiro, às 9h, assim como a de encerramento, programada para 14 de janeiro, às 19h.

O local do simpósio será a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Instituto de Letras, 11ª andar.

Mais informações no site http://www.sieec.com/
-

sábado, 9 de janeiro de 2010

A última revolta de Jesus Cristo

por Rogers Silva



Narração: Alian Moroz (alian.moroz@hotmail.com)
Trilha sonora: Composição número 5 (Alian Moroz)

*A última revolta de Jesus Cristo em PDF
Do livro Manicômio, ainda inédito.
.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dos insetos – Uma fábula curta

Por Chico Pascoal

Era uma vez uma borboleta chamada SunTzu que, em um café da moda, conheceu uma barata chamada Gregor Samsa. Entre um chá verde e um café expresso, entabularam animada conversa e descobriram interesses comuns: livros, vinhos, charutos, belas mulheres, música clássica... Mas como tudo é efêmero e superficial nessa vida, entre baforadas espessas o sonho logo se dissipou: Sun Tzu voltou a vender pastel na feira aos sábados; e Gregor Samsa a cuidar da sua lojinha de miudezas no bairro do Bom Retiro.

Chico Pascoal - Publicitário (Fac. Cásper Libero), trabalha na área de TI de uma ex-estatal. Publicou na antologia Contos imediatos (Terracota editora, org. Roberto de S. Causo). Mora em Sampa e bloga brevidades em http://microrelatosdocheeko.blogspot.com
-

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

830 agradecimentos

Queridos leitores, seguidores e colaboradores d’O BULE,

O nosso blogue completou uma semana e não poderíamos estar mais felizes. Nessa primeira semana, da tarde do dia 31 de dezembro ao final do dia 07 de janeiro, foram 830 visitas feitas por 539 visitantes únicos de 71 cidades, do Brasil e de outros países. Média de mais de 70 visitantes diários. No dia de mais visitas (domingo, dia 03/01), chegamos a 84 visitantes únicos num total de 126 visitas. Tratando-se de um blogue tão recente e ainda com divulgação limitadíssima, são números expressivos. Ah, estamos com 61 seguidores! E as colaborações não param de chegar ao nosso email: coisaprobule@yahoo.com.br, o que nos deixa ocupadíssimos mas muito estimulados.

O objetivo é ampliar mais ainda esses números; eles são importantes porque significam leitores, escritores, amantes da literatura, que se expressam, divulgam o seu trabalho, discutem a leitura e a escrita. Assim, fiquem à vontade em linkar O BULE em seu blogue ou em seu site. Caso queiram inserir o banner ou a logo, é só enviar um email pedindo que as enviaremos com o maior prazer. Também temos, para quem se interessar em criar uma postagem sobre O BULE, um release.

Estamos com algumas (boas) novidades:

1) Bimestralmente lançaremos a revista O BULE em PDF com todo o material do blogue. A revista estará disponível para download e será distribuída entre editores, escritores e agitadores culturais de todo o Brasil.

2) A fim de fazer um pré-teste postaremos contos em áudio (a princípio de um colunista especificamente) n’O BULE. Dependendo da recepção e de nossas condições, outros contos – inclusive de colaboradores – serão adaptados.

3) Em alguns dias deverá sair uma matéria e uma entrevista com os colunistas d’O BULE num jornal impresso de Campinas. Aguardem!

No mais, agradecemos aos nossos 539 visitantes.
Saudações literárias.
Colunistas d'O BULE.
-

Página Cultural


O Página Cultural é um projeto que nasceu em abril de 2006 com o objetivo de proporcionar a maior quantidade possível de informações culturais à população. O site pretende ser ponto de referência de divulgação, discussão e produção cultural no Triângulo Mineiro. Com o crescimento, cada vez mais pessoas passaram a colaborar com conteúdo e isso fez com que a página se ampliasse e, além das artes em todas as suas formas e expressões, passasse a informar também sobre educação, ecologia e seus desdobramentos, negócios variados, tecnologia, saúde, curiosidades, etc., não só da região, mas também de outras partes do país e do mundo, quando o assunto é considerado pertinente ao nosso leitor. Como O BULE, o PÁGINA CULTURAL oferece espaço literário, preenchido por talentos de várias partes do país; colunistas que enriquecem ainda mais o conteúdo, com textos de diversos estilos enviados periodicamente. Outro destaque é a Galeria Virtual em que artistas plásticos podem divulgar seus trabalhos.
-
-

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

C.T.I.

Por Bruna Mitrano

Não era pra eu estar aqui. (A luz não apaga nunca). Não era pra ninguém estar aqui. (Nada de cânticos celestiais). Mas estamos. (Esse pi-pi-pi eterno). Então, fechemos os olhos, todos, de uma só vez, pra enxergarmos mãos dadas, pra fazermos o mesmo pedido, pedir a quem?, não importa, juntos, distantes, cada um em sua cama branca, tudo branco.
-
* * * * *
-
Assim que acordei, pela primeira vez nesse lugar, depois de dormir não sei quantas horas ou dias ou séculos, esse senhor deitado ao meu lado direito puxou conversa. Disse-me que sairia logo. Isso foi anteontem. Ontem ele perdeu o movimento do corpo. Hoje ele está desse jeito. É triste ouvir a filha dizer “eu sei que você está me ouvindo”. Ela chora falando “pa-pai” (com essa pausa de afeto).
-
A senhora da frente não larga aquele livro (capa dura virando refeição pra traças, fita durex nas juntas). Queria eu ter um livro velho recheado de ácaros para abafar o cheiro de éter. Mal sabe a tal senhora que a invejo, não sei se pelo livro ou se pelo cuidado do alguém que trouxe o livro. “O livro”, ainda não descobri o título. Suponho que seja um romance naturalista daqueles que a gente passa a vida lendo. Penso num autor português; vai ver que é porque os olhos miúdos da senhorinha lembram os da minha avó, que quando podia lia Eça e Camilo Castelo Branco.
-
Agora tem esse silêncio no lado esquerdo. Levaram dali o carinha esquizofrênico. Sei lá se ele era esquizofrênico, sei que xingava todo mundo de filho da puta, menos eu, eu era puta mesmo. Ele fedia. O fedor ficou. Daqui a pouco vão trazer para o lugar que era dele um motociclista todo quebrado, que vai acabar com minha paz, vai gritar por tudo, até para mijar.
-
Ouço dizerem que lá fora cai um dilúvio. E eu presa na arca, sem tempo bom ou ruim, sem ar morno na cara. Aplicam uma injeção no tubinho transparente que está devidamente acoplado ao meu corpo e eu sinto o cheiro do mato que nasce nas fendas da calçada rachada da minha casa, mato molhado, dilúvio. “Não me deixa morrer”, peço agarrando o jaleco da doutora Márcia. Dra. Márcia Munis é o que vejo, bordado num bolso, minha cara está bem nos peitos dela; a médica não tem cabeça, mas se tem coração, peço.
-
* * * * *
-
Acordo outra vez. A senhora de olhos miúdos não está mais na minha frente. Pena não ter deixado o livro. As pessoas ficam pouco tempo aqui, já percebi. Quero sair logo, seja como for. Mentira. Quero sair viva. Aprendi a ter medo da morte. Dizem que ela é bonita. Quase nos encontramos outro dia. Não cheguei a vê-la, mas já sei de antemão que não faz meu tipo. Comigo não tem essa de querer experimentar sensações novas, nem aquela ladainha de superação. Já superei o sol de janeiro, o cheiro dos postos de gasolina e a programação de férias da tevê; é o suficiente. Pra que me doar mais?, peço tão pouco em troca, quero quase nada, só o meu corpo dormindo por conta própria na minha cama que espera desarrumada por mim (espera por mim, desarrumada por mim). Cama de verdade. Era pra eu estar no meu quarto agora, não era para eu estar no CTI. Aliás, não era pra ninguém estar no CTI.
-
Bruna Mitrano - Tem 24 anos e mora no "velho oeste carioca". Trabalhou tanto em micropaleontologia como em alfabetização de idosos. Hoje não faz muita coisa além de ler, ouvir música e observar pessoas desconhecidas.
Teima em manter o http://www.deliriolilas.blogspot.com/. Ah: e nunca publicou um livro.
-

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Última chance

Por Mauro Siqueira

ÚLTIMA CHANCE. Daqui posso vê-la do espelho: acaricia uma das costas do próprio braço, como que tímida, estranha por estar ali... ela ainda parece decidir, fazer parecer sensato. Eu não posso demorar, não posso deixar que aquela sombra ganhe corpo, sentido. Dúvida é a sombra, algo além do categórico, algo palpável: um véu, que apesar de fino e translúcido e mínimo, uma barreira intransponível entre nós. A dúvida: o limite.

Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.

* * * * *

Corro a mão pelo seu corpo por mais uma vez...

Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.

Talvez.

Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.

Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.

Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...

...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.

Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.

Hoje, hoje eu vou inverter clichês.

Mauro Siqueira - É carioca e formado em Letras pela UERJ. Faz parte de um grupo de pesquisa que tem como objeto a prosa brasileira contemporânea. Publicou em 2008 pela Multifoco De vermes e outros animais rastejantes, contos, seu primeiro livro. Atualmente trabalha como assessor editorial na EdUERj e prepara o segundo livro, também de contos, Simplesmente complicado. Passa a maior parte do tempo livre lendo, pensando em literatura, rock (inglês), filmes (bons e ruins) e trocadilhos infames. E ainda tenta manter vivo o seu blog (http://devermeseoutrosanimaisrastejantes.blogspot.com) nas noites de insônia, que não são raras. Está sempre “on”.
Contatos: maurovss@gmail.com @maurovss (twitter) Mauro Siqueira (facebook)
-
COMUNICADO D’O BULE AOS COLABORADORES: Com apenas cinco dias de existência, nosso blogue já recebeu uma quantidade grande de colaborações. Nossa caixa postal está cheia e, claro, estamos felizes. Todos os textos serão lidos e analisados. Talvez demore um pouco para respondermos. Os textos aceitos entrarão na fila para serem publicados no blogue e, quando forem, o seu autor será avisado. Esperamos a compreensão de todos. Enche-nos de alegria constatar a fome de literatura que existe no nosso país. Uma fome boa. Afinal, como disse Quincas Borba, humanitas tem fome, humanitas precisa comer.
-

domingo, 3 de janeiro de 2010

A Seita do Caos, de J. P. Balbino e a importância da literatura de entretenimento

Por Rogers Silva
.
Ação. Pura ação. Ação de perder o fôlego. Ágil como um filme de ação dos bons. Soma-se à ação a ficção científica. Soma-se à ação e aos traços de fc o suspense policial. São esses os gêneros de A seita do caos. E são justamente essas as qualidades do romance de estréia de J. P. Balbino. Despretensioso e bom. Simples e bom. Ele não se propôs a ser uma obra-prima (e não é), mas sim um bom entretenimento. Ponto pro autor, porque conseguiu.

Primeiramente quero começar a falar das minhas ex-antipatias pelos gêneros supracitados. As minhas antipatias por esses gêneros, mais especialmente por ação e fc, surgiram na verdade a partir do cinema, e não da literatura. Pouquíssimos filmes de ficção científica e de ação me agradavam. Os de ação sempre me passaram a impressão de entretenimento barato, feito por um diretor medíocre e pra um público preguiçoso. Aos de fc faltava algo, que falasse da condição humana (ou que a abordasse explicitamente), com a qual nos familiarizamos ao lermos um livro ou assistirmos a um filme.

Devo ressaltar que essas antipatias não têm nada a ver com preconceitos acadêmicos e/ou intelectuais. Muito antes de ingressar num curso superior ou ter o hábito de leitura eu já não gostava de filmes desses e de outros gêneros. São antipatias conseqüência de não-sei-lá-o-quê, que faz a gente gostar disso e não daquilo, ou de gostar mais disso do que daquilo. Incitavam minha curiosidade filmes brasileiros, dramas, filmes históricos, algumas comédias (sobretudo nacionais), alguns suspenses, pouquíssimos infantis. Mas ação e fc, não – raramente surgia a vontade de assistir a filmes cujos motes eram explosões de carro e tiros (no caso de ação) ou filmes de robôs, passados num futuro próximo ou distante. Sim, pra mim esses gêneros se resumiam a isso mesmo, sem colocar nem pôr.

No entanto o tempo passou, muita coisa aconteceu. Inclusive cheguei a publicar em duas antologias de literatura fantástica, cujo gênero principal era a ficção científica: Portal Solaris e Portal Neuromancer (ambas organizadas por Nelson de Oliveira). Nesse meio tempo li muitas obras policiais, das quais (das boas) passei a gostar muito. Autores como Flávio Moreira da Costa e Rubem Fonseca, com algumas de suas obras taxadas como policiais, são importantes não só para o gênero, mas também para a literatura brasileira. Assim, hoje, por várias e várias razões, sei do valor da literatura de ação, suspense e ficção científica para a formação de leitores. É aí onde quero chegar.

A seita do caos, do iniciante em livros (não levando em consideração suas participações em antologias) J. P. Balbino, é bom não porque levanta questões de ordem filosófica, política, afetiva, universal. Mas porque entretém. É um bom romance não porque (ab)usa de uma linguagem refinada, experimental, original. Mas porque sua linguagem é simples, direta e competente em sua proposta, estilo e gênero. A seita do caos é um bom romance não porque é pretensioso, complexo e rico, mas, ao contrário, porque é despretensioso, simples e limitado em seu projeto: de ser uma história de entretenimento.

Antes da sinopse do livro, comecemos pelo começo. A capa, a meu ver, poderia ser melhor: um olhar, entre uma máscara médica, ocupando a metade do espaço, e a visão de uma cidade, ocupando a outra metade, não dizem muito. No miolo, há pequenas falhas de impressão; nada comprometedor. Alguns probleminhas de gramática que, a meu ver, não deveriam ter passado, visto que há um revisor responsável por isso. Por outro lado, o tamanho da fonte, o espaçamento entre linhas e o espaço das margens (superior, inferior, esquerda, direita) são aprazíveis à leitura. A esses pontos positivos, somam-se um livro com orelhas e um marca-texto, tão esquecidos por tantos autores iniciantes. No geral, ponto pra editora, pro diagramador e pro autor.

Agora uma breve sinopse... Um ano após Klaus Lennertz (o protagonista) descobrir a cura para o Ius, um vírus que causou temor na humanidade e que foi responsável por algumas dissidências diplomáticas entre os países, quando tudo parecia estar resolvido, ele recebe em seu celular uma mensagem estranha e misteriosa dum indivíduo chamado Leonardo Cass: um recado sobre o pai de Klaus, que acabara de morrer, e sobre a possível volta do vírus mortal. A partir daí o leitor se depara com a procura por esse tal Leonardo e, em conseqüência, com uma série de perseguições contra o protagonista e seu grupo (sua namorada, seu irmão bandido e um amigo hacker do seu irmão).

Perseguições, muita ação, troca de tiros, explosão de carros, suspense, uma teoria absurda sem ser de todo inverossímil, espaços futuristas, traições, reviravoltas, heróis e vilões – eis o que o leitor encontra em sua leitura d’A seita do caos, de Balbino. Não pense o crítico literário mais ácido que é fácil fundir tudo isso num romance, descrever cenas de ação/troca de tiros/explosão de carros, entreter e, ainda por cima, convencer, ao ponto de incitar o leitor a continuar lendo, a fim de descobrir o que virá em seguida. Mas em seu primeiro romance J. P. Balbino consegue.

O romance é dividido em capítulos e, no interior desses capítulos, em quadros. A divisão em quadros, esses separados por espaços, ao mesmo tempo contribui e confunde. Contribui, juntamente com sua linguagem direta e fácil, para a agilidade do enredo, o que vai ao encontro da sua proposta inicial, de ser um romance de entretenimento. No entanto, confunde porque são apresentados ao leitor, a todo momento, situações, ambientes e personagens novos. Muitos desses personagens, ora porque têm o nome iniciado com a mesma letra ora porque não são bem descritos física e psicologicamente, confundem o leitor. Além do mais, alguns deles não têm sua função bem definida e, por isso, são dispensáveis ao enredo.

Enredo – é exatamente ele o protagonista do romance de Balbino. É exatamente por causa dele que o leitor segue em sua leitura, porque é ele responsável por prender a atenção do leitor e entretê-lo. A seita do caos é literatura de entretenimento. E a literatura de entretenimento é talvez a maior responsável por fisgar os (novos) leitores. Dê a um adolescente A seita do caos e Os lusíadas, de Camões, e ao final da sua leitura lhe pergunte de qual mais gostou. A resposta é óbvia.

Há leitores e leitores, há obras e obras. Há obras para leitores iniciados. Há obras para os leitores médios. Há momentos em que os leitores iniciados querem obras de leitura fácil e rápida. Chega um momento em que esses leitores médios necessitam de obras mais exigentes. Todas essas nuances e processos devem ser levados em conta pelos professores, críticos literários e demais especialistas. Mas infelizmente não é isso o que acontece. O que acontece, na verdade, é o oposto. Entre inúmeros equívocos, o mais comum é exigir de um adolescente de 14 anos a leitura de obras como a já citada epopéia de Camões e as do Pe. Antônio Vieira, por exemplo.
.
A seita do caos, de J. P. Balbino, está em circulação. Que os leitores possam conhecê-lo. Com certeza encontrarão entretenimento dos bons.

* Livros podem ser enviados para o colunista Rogers Silva a fim de serem resenhados. Tratar pelo email rogers.silva@yahoo.com.br Após lido, o livro será sorteado entre os leitores/seguidores d'O BULE.
-

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Zaratustra

Por Rodrigo Novaes de Almeida
-
Ontem Zaratustra sonhou com dois leões e uma besta negra. Eles o intimidavam, como ocorrera em outro sonho, no qual sete leões o perseguiam. Ele correra, tentando chegar ao cume de uma montanha. Cercaram-no. A besta negra surgira também e se transformara num samurai. Lutaram com espadas. Zaratustra alcançaria, numa outra noite, o cume daquela montanha. Uma leoa prostrada diante de uma mão sem corpo fecharia o seu caminho à última pedra, e também primeira. Um lago com milhares de ametista sob as águas seria a sua única e derradeira alternativa, mas um macaco de pêlos dourados conspurcava o corpo de Eva na margem ocidental. E o silêncio. Tinha o silêncio. A guerra estava longe agora, nas planícies. Apenas uma espécie humana sobreviveria então. Zaratustra não pensava em seus filhos que ainda levariam ciclos de tempo para nascer, mas olhava através deles, de crianças brincando sobre um piso de mármore. Aqueles olhos, eram os seus olhos, olhos grandes em faces pequenas, olhos que diziam futuro. A espada do samurai atravessou o seu peito, mas ele não caiu. Continuou lutando, e antes que cortasse o seu adversário em dois, o adversário se tornou mulher. Longe dali dois leões e uma besta negra quebrantavam outro Zaratustra. O dilúvio começara. A água era escura e cheirava mal. Podre. Era um pântano, mas era também uma floresta fechada. Zaratustra subiu em uma das árvores e avançou para a seguinte. Os dois leões ficaram para trás, mas a besta negra mantinha o seu propósito. Zaratustra não sobreviveria. Seus filhos não nasceriam futuro. O mundo não veria mais sol, que explodisse o sol, que explodissem todos os sóis. Andrômeda já atravessara meia galáxia. Eram uma coisa só, uma borboleta dançando no Cosmo. Mas não havia explosões. Não haveria explosões; não até o devido ciclo de tempo. Zaratustra sabia. Nós sabíamos! Um tempo festivo já começara. A dança galáctica, sim! As crianças futuro. Por que Zaratustra ainda sonhava? Por que voltava o seu olhar para o passado, justo agora? Ele trouxe o futuro, mas seus sonhos, mesmo tanto tempo... Ai, o que nós estamos dizendo? Não foi ontem. Tudo agora. Sem amanhã. Mas Zaratustra viu. Viu amanhã e vê agora-ontem. E algo ficou preso no passado, algo que precisa... não... algo que quer se mostrar para Zaratustra. Estou velho, diz ele. Minhas crianças cresceram. Espalharam-se no bater de asas de Borboleta. Agora todos dançam. A nova galáxia festeja. Desde a queda da besta negra do mundo. Eu sou o último da minha espécie. Eu sou passado, agora. Os sonhos me dizem a verdade, sempre. É hora de partir, espírito do tempo. O fluxo em mim deve desvanecer. Precisa. Eu quero. Eu não quero: mais. O ciclo do tempo humano se fechou em mim; como princípio, volto a ser criança. Então. Zaratustra. Presença. Faz-se Esquecimento. Desfaz-se. Uma ode ao homem morto. Pequeno recorte. Dobradura. Borboleta bate suas asas. O sol nasce, como ontem, mas não há mais olhos humanos para vê-lo. Crianças brincam, entre as estrelas. Até que um dia, pleno será o repouso das nascentes dos rios do tempo; é lá que Zaratustra nos espera, agora.
-