quinta-feira, 4 de março de 2010

Conversa de bar numa padaria

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Sempre quando encontro Josué Francisco, meu amigo e cúmplice de copo dos fins de semana aqui nos botecos de Copacabana, ele me vem com umas histórias daquelas difíceis de engolir, a não ser, é claro, acompanhadas de muita cerveja. Só que desta vez o encontrei na padaria da minha rua, às seis e pouco da manhã de uma segunda-feira...

Verme! Como vai? Caiu da cama hoje? Você não sabe da última!

Expliquei, entre uma mastigada e outra no pão com presunto, que era dia de batente.

Claro, claro! Mas tenho que te contar, meu amigo. Voltei naquela cigana.

Josué é um sujeito estranho. Gente boa, coração aberto, um tanto ingênuo, tem dia que acredita em tudo – pai-de-santo, Jesus Cristo, ET, Lula, o escambau –, e outro que se faz de Tomé e não tem cargas d’água que o convença de coisa alguma. Vi que não havia jeito, eu teria que escutá-lo mesmo sem a segurança de uma boa gelada. Pedi um refrigerante e outro pão com presunto na chapa.

Dessa vez ela tirou apenas três cartas. Você sabe, ela já tinha passado umas quatro horas me contando minhas vidas passadas, em julho, lembra? Um imperador-deus jamais perde a majestade e a divindade, não é mesmo? Tudo bem que eu não era um imperador nem um deus, estava mais para rei e xamã, ou que diabo se chama isso lá naquele vago Oriente que ela apontou sem me dar um ponto geográfico específico, como se Oriente fosse a esquina da Prado Júnior com a Nossa Senhora...

Tentei, apenas tentei dizer que era uma segunda-feira e que ia me atrasar para o trabalho. Ele prometeu encurtar a história, mas eu sabia que o meu atraso seria favas-contadas.

Dinheiro. Felicidade. Mensageiro. Foram as três cartas anunciadas pela cigana desta vez. Só coisas boas. Bem, mais ou menos. O Mensageiro pode trazer coisa ruim, sabe, mas a carta vizinha era Felicidade, justamente a carta do centro, a principal, e ela só traz boa-nova, meu caro, só coisa boa mesmo! Sucesso, fortuna. Só tenho que tomar cuidado com rancores, ela me disse, e fechar mais a boca, sabe. Aquele negócio daquela frase que você solta em latim lá no boteco quando já está na manguaça, como que é? Vaidade, tudo vaidade?

'Vanitas vanitatum et omnia vanitas' (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade). Pensei, mas não disse. Deixei que ele continuasse, para acabar logo, mas também porque me deu uma ponta de vergonha repetir ali na padaria aquele latim de botequim.

Já não sou um imperador-deus, mas pelo menos a sorte não me abandonou. A velha até citou uma frase do Salomão, o filho de Davi, o rei de Israel. Abriu o livro numa página qualquer e caiu bem nos provérbios. “Ouve, meu filho, a instrução de teu pai: não desprezes o ensinamento de tua mãe”. Ela não soube me explicar o que significava isso; minha mãe morreu há mais de vinte anos. Papai então nem se fala...

A frase me levou para outros vôos. Já não escutava o Josué. Pensava no ato falho do patriarca. Parecia que ele confessava que estaríamos em melhor situação sob fundações matriarcais. Era uma divagação profunda demais e estranha demais para uma manhã de segunda-feira.

...então é isso! Penso em voltar lá mês que vem, você não quer ir comigo?

Respondi que não. Vidas passadas, sortes, destinos, nada disso me interessa. Talvez, se fosse possível saber... Será que seria possível? Vidas futuras? Não o que vai me acontecer nesta vidinha murrinha de agora, mas numa lá nos confins dos séculos que ainda estão por vir?

Ai, ai, muita abobrinha para se começar uma semana de trabalho. Apontei para o relógio no meu pulso e me despedi do amigo, antes que ele recomeçasse a ladainha, prometendo aparecer no próximo fim de semana para bebermos umas cervejas e jogar mais conversa fora.
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4 comentários:

Rafaela Gimenes disse...

Adorei, simplesmente adorei. Muito, muito, muito bem escrita. Acordei cedo, tô empolgada repetindo palavras...

Só queria deixar aqui que gostei mesmo!

glória disse...

Ei homem, nunca havia passado por aqui. amei percorrer réstias de um encontro que poderia se perder na correria cotidiana.

"Parecia que ele confessava que estaríamos em melhor situação sob fundações matriarcais."

Matriarcas são de matizes fundadoras: genial essa passagem. como diz um amigo: o twitter é apenas um atalho, pistas para outros continentes,

bjs

Anonymous disse...

Digo, gostei!
Ainda estou devendo a compra do livro... hehehe
Abs
Carvalhal

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

É verdade, Carvalhal (rs) Mas o Peéfe também não comprou ainda, tá me enrolando (rs) Pelo menos ele gostou do último texto que postei lá no meu blogue contando, entre outras, a origem do apelido dele :-P

Glória, muito obrigado pelo comentário e apareça sempre aqui no nosso bule. E vc tá certa quanto ao twitter :)))

Rafaela, obrigado também. Quer dizer que veio dar uma navegada no bule cedinho?! Eu só conseguiria se tivesse virado a noite (rs)

Valeu, beijos.

(Carvalhal, um abraço e quando eu voltar de viagem vê se compra o meu livro então!!!)

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