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Os vinte e oito contos que compõem De vermes & outros animais rastejantes, um título escatológico você pode achar, mas não há melhor para (re)tratar no seu interior a vida de personagens tragicômicos, hedonistas, amorais, mesquinhos, sonhadores, desiludidos, apaixonados, fóbicos e repletos de emoções distorcidas na sua maioria – quiçá totalidade – que lá habitam. Essas figuras humanas se defrontam com situações por vezes limite, por outras completamente cotidianas e banais (por isso, não menos opressoras) em que deixam vir à tona repressões e recalques que não gostariam de sair expondo por aí... De vermes & outros animais rastejantes fala da conformidade, da inércia das posições assumidas dos dias de hoje e tomadas como confortáveis. Contos breves, porém contundentes.
Não houve disparo, simplesmente a arma “negou fogo”, Monteiro ia examinar a mesma quando... Caiu levando as duas mãos ao rosto já cheio de sangue – por que nos momentos mais estranhos da nossa vida temos as idéias mais tolas e estúpidas? A primeira coisa que passou pela minha cabeça ao vê-lo no chão foi: “Defeito de fábrica, o fabricante promoveu um ‘recall’, Monteiro não se deu ao trabalho de levar a arma.” O argentino desgraçado contorcia-se na terra vermelha e no cascalho de dor, eu ainda ajoelhado começava a entender que o tiro saíra pela culatra, quando vi o revólver. A três palmos do meu alcance a arma acenava para mim com a promessa de poder e vitória, os amigos do seu antigo dono eram mais lentos que lagartos pré-históricos e levaram uma vida para tomar alguma atitude. Duas idéias loucas atravessaram meu córtex cerebral: a primeira, faria como nos filmes e derrubaria os brutamontes com poderosos golpes de artes marciais que nem mesmo conhecia? Ou a segunda, convencê-los-ia a desistir – falaríamos de Buda, Jesus, Krishna, Gandhi, King... – já que muitas pessoas haviam se machucado. O dilema nem corroeu meus sentimentos. Trecho de "Dilema ou 47 segundos"
8 comentários:
Senti um sabor de Berenice, do Poe. Gostei.
Fábula escura, sim. Envolvente. E muito boa a trama.
Um fábula moderna, com certeza, e muito bem contada.
gostei bastante.
mas deixo minha crítica por não aceitarem comentários anônimos?
É pela surpresa dos seus finais que eu sempre volto a te ler (Só isso, o comentário é só esse. Porque os textos que mais me tocam são justamente os que me deixam sem nada a dizer. E esse, esse é um deles.)
@Artur, obrigado pelo comentário! Fiquei curioso com a menção à Poe, li-o menos que queria (e devo) e esse pouco que li ficou na adolescência e não me lembro bem desse conto, se cheguei a lê-lo.
@Parreira e @Pedro, obrigado a vocês também!
@Milena: Obrigado mais uma vez pelo comentário e pela leitura. e olha, eu gosto muito do silêncio, então entendo o que quer dizer.
“I wish I could eat the salt of your lost and fading lips.” Interpol, muito bom! A citação caiu como uma luva! E que continho pavoroso, hein? :)
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