sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Interrogatório

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Machado: Aí, Almeida, o cara cagou nas calças.
Almeida: Merda!
Machado: Isso.
Almeida: Sem gozação. Preferia que tivesse mijado. Cagão traz carma ruim. Agora é tarde. Deixa comigo. Cadê o Chicão?
Machado: Tá lá com o homem.

Almeida: Porra, Chicão, tu arrancou até os dentes do desgraçado.
Chicão: Pô, chefe, ele não assume. Mas dá pra ele falar. Fala, seu merda!
Interrogado: Ahhh...
Almeida: Ele confessou?
Chicão: Não, chefe. Diz que não foi ele. Chorou e tudo.
Almeida: E se borrou, também. Tá um fedor do caralho aqui. Pega a mangueira e dá um banho nele...
Chicão: Solto ele?
Almeida: Amarrado mesmo, aí na cadeira. Só pra diminuir o fedor. Arranca a roupa também.
Chicão: Vamo enfiar a vassoura no rabo do filho da puta?
Almeida: Não! Nada de viadagem. Me chama quando acabar...

Machado: E aí, Almeida?
Almeida: Entra lá e ajuda o Chicão!
Machado: Pô, Almeida.
Almeida: Vai, porra.

Almeida: Terminaram?
Chicão: Melhorou, chefe. O cara tem um piruzinho...
Machado: Qualé, Chicão, pagando pau?
Chicão: Vai se fuder.
Machado: Olha como fala comigo.
Almeida: Cala a boca os dois. Chicão, pega o alicate. Vamo arrancar as bolas dele.
Machado: O cara tá nas últimas, Almeida...
Almeida: Ele só sai daqui confessando.
Machado: Vou esperar lá fora.

Chicão: Opa, chefe, posso?
Almeida: Vai, arranca você.
Chicão: E aí, viadinho, vai comer suas bolas hoje...
Almeida: Ele quer falar...
Chicão: Tá só choramingando...

Machado: Almeida, telefone.
Almeida: Agora não dá.
Machado: É o doutor Menezes.
Almeida: Porra, o que ele quer agora?
Machado: Sei lá, porra, quer falar com você.

Almeida: Fala, chefe!
Menezes: Investigador Almeida?
Almeida: Sou eu, chefe.
Menezes: Meu colega da depê do centro ligou, pegaram o estuprador da menina...
Almeida: Mas e o cara que tá aqui com a gente?
Menezes: Ele confessou?
Almeida: Não, chefe. E olha que o Chicão já arregaçou com ele.
Menezes: Caralho, Almeida, que merda de investigador é você de levar a besta do Chicão pra interrogatório? Ele já tá fudido, vai ser expulso da corporação...
Almeida: Só tinha ele...
Menezes: Que se foda. O cara tá muito mal? Dá pra soltar?
Almeida: Dá mais não.
Menezes: O inspetor Machado taí com vocês?
Almeida: Sim, senhor.
Menezes: Deixa ele aí com o Chicão, manda esse policial de merda apagar o suspeito e se livrar dele. Quero o Machado junto, pra não fazer cagada. E você vem pra depê. Temos que trazer esse estuprador da menina pra cá, que essa porra vai dar ibope e quero sair bem. Ano de eleição, sabe como é?
Almeida: Certo, chefe.

Almeida: O delegado mandou se livrar do suspeito.
Machado: Que aconteceu?
Almeida: Os filhos da puta do centro pegaram o estuprador antes de nós.
Chicão: Merda. E esse cara aqui?
Machado: É inocente, pô.
Chicão: Ninguém é inocente. Ele deve ter feito alguma...
Almeida: Chega! Tô indo pra depê. Vocês se livram dele.
Machado: Por que eu tenho que ficar?
Almeida: Ordem do Menezes. Ele quer você de babá do Chicão.
Chicão: Caralho que eu não preciso de babá, porra.

Machado: Puta que pariu, o cara se cagou todo de novo.
Almeida: Carma ruim, carma ruim. Agora é tarde. Fui.
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8 comentários:

Homero Gomes disse...

Só digo duas palavrinhas:

Do caralho

Jean Roberto disse...

Daora, mandou bem Rodrigo.

Abraços.

Rogers Silva disse...

bom mesmo, rodrigo! a la 'elite da tropa'. continue nesse rumo. c tem futuro :D

GiAlmérida disse...

Legal! Gostei! Me lembrou Marçal Aquino além de um certo humor doentio na cena - é quase uma cena. Outra coisa que me chamou a atenção, ele tá na mesma linha, eu achei, daquele que o Mauro Apresentou, foi combinação de vocês?

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Valeu, pessoal!

Gi, nem combinamos, eu e Mauro. Mas a linha deve ser por conta de sermos, ambos, cariocas. Tá complicado o negócio aqui rsrsrsrs

Abraços e beijos, R.

Rafaela Gimenes. disse...

Primeira vez que leio algo aqui. Gostei pra caralho. Rodrigo Novaes de Almeida, né? Vou lembrar.

Rodrigo Novaes de Almeida disse...

Rafaela, obrigado :-)))
Um beijo grande pra vc.
Rodrigo.

Anonymous disse...

Diálogos perfeitos, deixando à mostra a ferida, a violência que nos assombra. Parabéns, Rodrigo.

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