A partir de hoje escrevo crônicas aqui n’O BULE. Mas inéditas mesmo, só a partir de março. Por enquanto, das antigas... Publicada no meu blogue Superfície Líquida. Nele, destaco ainda: “Onívoros vulgares”, coluna 14; “Quando um pacifista vai à guerra”, coluna 21; “Znam znam”, coluna 24; “Flip 2009 em superfícies líquidas”, coluna 25; e, também, a coluna especial “A queda no mundo”.
Mitos de fundação
“Depois, quando aprendi a ler, devorava os livros, e pensava que eles eram como árvores, como bicho, coisa que nasce. Não sabia que havia um autor por trás de tudo. Lá pelas tantas eu descobri que eram assim e disse: ‘Isso eu também quero.’” (Clarice Lispector)
Daqui a bilhões de anos os sóis se apagarão, não haverá novas nascentes de estrelas e o universo entrará numa era de escuridão. Nós, os macacos beligerantes, não estaremos mais aqui. Nem as nossas preces e suas catedrais de sangue. Nem os nossos livros e suas fogueiras de intolerância. Portanto, o que fazemos dia após dia é, em verdade, um esforço inútil, um desperdício despropositado de energia e de secreções. Uma crônica, algumas palavras, diante disso é menos do que aquele grão de mostarda, o célebre grão de mostarda do deus crucificado.
Uma afronta à finitude de todas as coisas. Isto é o homem. É do homem escrever para afrontar o fim. Porque a pulsão do homem é o acabamento de tudo – até da morte. De tal modo, e para buscar o humano que existe em algum lugar dentro de mim, escreverei essas crônicas, farei esse esforço inútil de dar sentido àquilo que não tem sentido. Mas farei isto com certa alegria. Não a alegria dos idiotas, mas a alegria daqueles que reconhecem a idiotia do mundo e mesmo assim gozam. Gozam porque podem e querem gozar.
Pensamentos em fluxo
Do terceiro andar do edifício, eu vejo o pátio cheio de jovens universitários, um muro e, além deste, um outro pátio, onde crianças entre quatro e seis anos brincam de ciranda. Volto o olhar para o alto, vejo o Cristo Redentor e um céu azul de uma típica manhã de inverno no Rio cobrir toda a cidade.
Penso não haver tempo passado e tempo futuro, apenas o presente, contraditoriamente perecível e absoluto. Penso no cigarro que fumo enquanto escrevo. Vejo a fumaça, vejo a brasa, vejo as cinzas. Penso na questão do olhar, do olhar que observa e do olhar que contempla. Penso em fluxo, mergulhado nos pensamentos em fluxo. Defino o homem. Dou novo nome às coisas.
Lá pelas tantas... Árvore se chama janela. Janela se chama copo. Copo se chama girafa. Girafa se chama árvore. Homem é mármore. Então, nesta nova ordem das coisas tem-se um novo sentido do mundo. Agora o que vejo, eu vejo através do copo, e através do copo vejo o mármore sob a janela. Um mármore vagabundo pensando em árvores.
Jogo o cigarro no chão, cigarro que se chama libélula e chão que se chama queijo, e piso na libélula para apagá-la; depois a vejo amassada sobre o queijo. Penso novamente em fluxo, que agora se chama perdão, e mergulhado em perdão redefino o mármore no mundo. Mas para o mundo não dou outro nome, porque o mundo precisa permanecer mundo, contraditoriamente perecível e absoluto.
O ideal mesmo seria mudar o nome do verbo. Penso, fluídico.
PS.: Parte desta crônica é de 12 de setembro de 2007 e outra parte de 30 de setembro de 2008. Colunas 2 e 3 do blogue Superfície Líquida.
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2 comentários:
Putz que viajem, hein Rodrigo!
Pensamento agudo, longe da precípua reralidade.
Viajei também...
Muito bom, Rodrigo. Parabéns.
ei, gostei desse trecho: "De tal modo, e para buscar o humano que existe em algum lugar dentro de mim, escreverei essas crônicas, farei esse esforço inútil de dar sentido àquilo que não tem sentido. Mas farei isto com certa alegria. Não a alegria dos idiotas, mas a alegria daqueles que reconhecem a idiotia do mundo e mesmo assim gozam. Gozam porque podem e querem gozar."
muito bom!
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