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Ontem Zaratustra sonhou com dois leões e uma besta negra. Eles o intimidavam, como ocorrera em outro sonho, no qual sete leões o perseguiam. Ele correra, tentando chegar ao cume de uma montanha. Cercaram-no. A besta negra surgira também e se transformara num samurai. Lutaram com espadas. Zaratustra alcançaria, numa outra noite, o cume daquela montanha. Uma leoa prostrada diante de uma mão sem corpo fecharia o seu caminho à última pedra, e também primeira. Um lago com milhares de ametista sob as águas seria a sua única e derradeira alternativa, mas um macaco de pêlos dourados conspurcava o corpo de Eva na margem ocidental. E o silêncio. Tinha o silêncio. A guerra estava longe agora, nas planícies. Apenas uma espécie humana sobreviveria então. Zaratustra não pensava em seus filhos que ainda levariam ciclos de tempo para nascer, mas olhava através deles, de crianças brincando sobre um piso de mármore. Aqueles olhos, eram os seus olhos, olhos grandes em faces pequenas, olhos que diziam futuro. A espada do samurai atravessou o seu peito, mas ele não caiu. Continuou lutando, e antes que cortasse o seu adversário em dois, o adversário se tornou mulher. Longe dali dois leões e uma besta negra quebrantavam outro Zaratustra. O dilúvio começara. A água era escura e cheirava mal. Podre. Era um pântano, mas era também uma floresta fechada. Zaratustra subiu em uma das árvores e avançou para a seguinte. Os dois leões ficaram para trás, mas a besta negra mantinha o seu propósito. Zaratustra não sobreviveria. Seus filhos não nasceriam futuro. O mundo não veria mais sol, que explodisse o sol, que explodissem todos os sóis. Andrômeda já atravessara meia galáxia. Eram uma coisa só, uma borboleta dançando no Cosmo. Mas não havia explosões. Não haveria explosões; não até o devido ciclo de tempo. Zaratustra sabia. Nós sabíamos! Um tempo festivo já começara. A dança galáctica, sim! As crianças futuro. Por que Zaratustra ainda sonhava? Por que voltava o seu olhar para o passado, justo agora? Ele trouxe o futuro, mas seus sonhos, mesmo tanto tempo... Ai, o que nós estamos dizendo? Não foi ontem. Tudo agora. Sem amanhã. Mas Zaratustra viu. Viu amanhã e vê agora-ontem. E algo ficou preso no passado, algo que precisa... não... algo que quer se mostrar para Zaratustra. Estou velho, diz ele. Minhas crianças cresceram. Espalharam-se no bater de asas de Borboleta. Agora todos dançam. A nova galáxia festeja. Desde a queda da besta negra do mundo. Eu sou o último da minha espécie. Eu sou passado, agora. Os sonhos me dizem a verdade, sempre. É hora de partir, espírito do tempo. O fluxo em mim deve desvanecer. Precisa. Eu quero. Eu não quero: mais. O ciclo do tempo humano se fechou em mim; como princípio, volto a ser criança. Então. Zaratustra. Presença. Faz-se Esquecimento. Desfaz-se. Uma ode ao homem morto. Pequeno recorte. Dobradura. Borboleta bate suas asas. O sol nasce, como ontem, mas não há mais olhos humanos para vê-lo. Crianças brincam, entre as estrelas. Até que um dia, pleno será o repouso das nascentes dos rios do tempo; é lá que Zaratustra nos espera, agora.
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4 comentários:
por falta de termo melhor, doidão este conto :D
Putz, curti o enredo. Totalmente místico essa ficção.
Parabéns Rodrigo!
Um abraço.
"Não foi ontem. Tudo agora. Sem amanhã."...O que dizer, né? Rodrigo sabe brincar de fazer.
obrigada pelo convite, querido! :)
beijbeijooo
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