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Primeiramente quero começar a falar das minhas ex-antipatias pelos gêneros supracitados. As minhas antipatias por esses gêneros, mais especialmente por ação e fc, surgiram na verdade a partir do cinema, e não da literatura. Pouquíssimos filmes de ficção científica e de ação me agradavam. Os de ação sempre me passaram a impressão de entretenimento barato, feito por um diretor medíocre e pra um público preguiçoso. Aos de fc faltava algo, que falasse da condição humana (ou que a abordasse explicitamente), com a qual nos familiarizamos ao lermos um livro ou assistirmos a um filme.
Devo ressaltar que essas antipatias não têm nada a ver com preconceitos acadêmicos e/ou intelectuais. Muito antes de ingressar num curso superior ou ter o hábito de leitura eu já não gostava de filmes desses e de outros gêneros. São antipatias conseqüência de não-sei-lá-o-quê, que faz a gente gostar disso e não daquilo, ou de gostar mais disso do que daquilo. Incitavam minha curiosidade filmes brasileiros, dramas, filmes históricos, algumas comédias (sobretudo nacionais), alguns suspenses, pouquíssimos infantis. Mas ação e fc, não – raramente surgia a vontade de assistir a filmes cujos motes eram explosões de carro e tiros (no caso de ação) ou filmes de robôs, passados num futuro próximo ou distante. Sim, pra mim esses gêneros se resumiam a isso mesmo, sem colocar nem pôr.
No entanto o tempo passou, muita coisa aconteceu. Inclusive cheguei a publicar em duas antologias de literatura fantástica, cujo gênero principal era a ficção científica: Portal Solaris e Portal Neuromancer (ambas organizadas por Nelson de Oliveira). Nesse meio tempo li muitas obras policiais, das quais (das boas) passei a gostar muito. Autores como Flávio Moreira da Costa e Rubem Fonseca, com algumas de suas obras taxadas como policiais, são importantes não só para o gênero, mas também para a literatura brasileira. Assim, hoje, por várias e várias razões, sei do valor da literatura de ação, suspense e ficção científica para a formação de leitores. É aí onde quero chegar.
A seita do caos, do iniciante em livros (não levando em consideração suas participações em antologias) J. P. Balbino, é bom não porque levanta questões de ordem filosófica, política, afetiva, universal. Mas porque entretém. É um bom romance não porque (ab)usa de uma linguagem refinada, experimental, original. Mas porque sua linguagem é simples, direta e competente em sua proposta, estilo e gênero. A seita do caos é um bom romance não porque é pretensioso, complexo e rico, mas, ao contrário, porque é despretensioso, simples e limitado em seu projeto: de ser uma história de entretenimento.
Antes da sinopse do livro, comecemos pelo começo. A capa, a meu ver, poderia ser melhor: um olhar, entre uma máscara médica, ocupando a metade do espaço, e a visão de uma cidade, ocupando a outra metade, não dizem muito. No miolo, há pequenas falhas de impressão; nada comprometedor. Alguns probleminhas de gramática que, a meu ver, não deveriam ter passado, visto que há um revisor responsável por isso. Por outro lado, o tamanho da fonte, o espaçamento entre linhas e o espaço das margens (superior, inferior, esquerda, direita) são aprazíveis à leitura. A esses pontos positivos, somam-se um livro com orelhas e um marca-texto, tão esquecidos por tantos autores iniciantes. No geral, ponto pra editora, pro diagramador e pro autor.
Agora uma breve sinopse... Um ano após Klaus Lennertz (o protagonista) descobrir a cura para o Ius, um vírus que causou temor na humanidade e que foi responsável por algumas dissidências diplomáticas entre os países, quando tudo parecia estar resolvido, ele recebe em seu celular uma mensagem estranha e misteriosa dum indivíduo chamado Leonardo Cass: um recado sobre o pai de Klaus, que acabara de morrer, e sobre a possível volta do vírus mortal. A partir daí o leitor se depara com a procura por esse tal Leonardo e, em conseqüência, com uma série de perseguições contra o protagonista e seu grupo (sua namorada, seu irmão bandido e um amigo hacker do seu irmão).
Perseguições, muita ação, troca de tiros, explosão de carros, suspense, uma teoria absurda sem ser de todo inverossímil, espaços futuristas, traições, reviravoltas, heróis e vilões – eis o que o leitor encontra em sua leitura d’A seita do caos, de Balbino. Não pense o crítico literário mais ácido que é fácil fundir tudo isso num romance, descrever cenas de ação/troca de tiros/explosão de carros, entreter e, ainda por cima, convencer, ao ponto de incitar o leitor a continuar lendo, a fim de descobrir o que virá em seguida. Mas em seu primeiro romance J. P. Balbino consegue.
O romance é dividido em capítulos e, no interior desses capítulos, em quadros. A divisão em quadros, esses separados por espaços, ao mesmo tempo contribui e confunde. Contribui, juntamente com sua linguagem direta e fácil, para a agilidade do enredo, o que vai ao encontro da sua proposta inicial, de ser um romance de entretenimento. No entanto, confunde porque são apresentados ao leitor, a todo momento, situações, ambientes e personagens novos. Muitos desses personagens, ora porque têm o nome iniciado com a mesma letra ora porque não são bem descritos física e psicologicamente, confundem o leitor. Além do mais, alguns deles não têm sua função bem definida e, por isso, são dispensáveis ao enredo.
Enredo – é exatamente ele o protagonista do romance de Balbino. É exatamente por causa dele que o leitor segue em sua leitura, porque é ele responsável por prender a atenção do leitor e entretê-lo. A seita do caos é literatura de entretenimento. E a literatura de entretenimento é talvez a maior responsável por fisgar os (novos) leitores. Dê a um adolescente A seita do caos e Os lusíadas, de Camões, e ao final da sua leitura lhe pergunte de qual mais gostou. A resposta é óbvia.
Há leitores e leitores, há obras e obras. Há obras para leitores iniciados. Há obras para os leitores médios. Há momentos em que os leitores iniciados querem obras de leitura fácil e rápida. Chega um momento em que esses leitores médios necessitam de obras mais exigentes. Todas essas nuances e processos devem ser levados em conta pelos professores, críticos literários e demais especialistas. Mas infelizmente não é isso o que acontece. O que acontece, na verdade, é o oposto. Entre inúmeros equívocos, o mais comum é exigir de um adolescente de 14 anos a leitura de obras como a já citada epopéia de Camões e as do Pe. Antônio Vieira, por exemplo.
5 comentários:
Ótima resenha Rogers. Aqui você trata de uma realidade, realidade de que existem leitores(também assíduos), que já cansaram de ler coisas do tipo Camões, Pe.Antônio Vieira.
Esta na hora sim, de postar diretrizes pra uma literatura prazerosa e menos cansativa, e menos confusa.
Um abraço Rogers
Rogers,
bem bacana os esclarecimentos que você fez. Achei muito interessante a questão do leitor e da obra, pq ao meu ver a obra não se faz por si só, quem a define são os leitores.
Aplausos para a idéia do envio de obras a serem resenhadas e o posterior sorteio delas.
Meus parabéns para você e para todo mundo d'O Bule!
André
uau, a Bruna tinha razão, isso aqui é porreta.
um cheiro.
claro, de café: eu adoro.
Bom "dimais", sô!
Gostei da consideração sobre formação de leitores, é preciso pensar nisso.
Rogers, essa pode não ser sua especialidade, mas você faz muito bem. Se tu continuar assim, vão, como disse o Rodrigo, roubar você da gente (ó, hein, não pode!rs).
Mineirin arrasa!
Ô, Jean, muito obrigado pela leitura. A leitura, por si só, é bastante prazerosa, desde que o livro certo esteja em mãos certas. No entanto, isso nem sempre acontece nas nossas escolas.
André, exatamente – só existe texto porque existe leitor; é um que define o outro; a existência de um depende da existência do outro. Infelizmente alguns escritores se esquecem disso e fazem literatura ou só pra si mesmo ou apenas pros seus pares, os “beneficiados”.
Ah, livros já estão sendo enviados pra eu resenhá-los e, depois, sortearmos aqui n’O Bule. Estejam atentos!
Nina, volte sempre.
Bruninha, muito obrigado pela “força”. É mais ou menos assim – vou pra onde pagar melhor :D Como aqui não recebo nada, vou pra qualquer lugar que me pague qualquer coisa! Rsrs.
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